quarta-feira, julho 16, 2008

O charme discreto do doutorando

Desconfio de todo este filão contemporâneo dos estudos culturais que se legitimam com as cauções do feminismo, da orientação sexual, do pós-colonialismo, etc. Tenho a impressão de que, à falta de ideias discursivas sobre os textos, quadros, músicas, filmes do passado, foi preciso legitimar as profissões académicas com estratégias de leitura que apenas tiram tangentes aos objectos que pretendem ler.

É claro que temos que tomar posição sobre todos esses assuntos. Mas essa é uma posição de leitura histórica. Ou seja, podemos condenar a humanidade por no passado não ter atingido o nível de humanidade que (pensamos nós) temos no presente, mas temos de compreender o seu legado a partir de um relativismo adequado. A cidadania é sobretudo um exercício de actualidade.

Por exemplo, a situação da mulher. É preciso pensar que a hegemonia histórica do poder masculino não se deveu necessariamente a uma perversidade calculista dos homens (independentemente das bestas que povoam todas as épocas), mas a um factor de educação e manipulação cultural. E o pior de tudo, e isso as feministas não gostam de confessar, é que a maior parte das mulheres consentiam nesse estado das coisas, e ficavam chocadas com a menor tentativa de emancipação do seu género. Ou seja, nem eles nem elas tiveram a capacidade (e provavelmente nem teriam condições de a ter) para fazerem uma crítica da cultura do seu tempo.

Temos de celebrar os visionários da ética, claro. Oscar Wilde, Virginia Woolf, etc. Mas já não encontro interesse nenhum em reduzir um texto a uma questão que não faz parte da sua essência. Será que podemos ler a poesia de Wordsworth sem tentar assimilar e repensar os seus assuntos verdadeiros, e em vez disso gastarmos uma vida a tentar encontrar as manchas de uma mentalidade datada? Que houvesse uma ou duas pessoas a trabalhar nesses assuntos, isso era compreensível. Que se faça disso um megalómano campo de batalha parece-me um sinal de decadência universitária. Enfim, se não têm nada a dizer sobre um texto, o silêncio é a solução.

Para além disto, há graus de gravidade em todo este problema. Que um autor do passado só seja capaz de conceber a mulher como virgem ou como puta (desrespeitando a sua inteligência e parte do espectro da sua liberdade) não me parece tão criminoso como, por exemplo, o fenómeno da escravatura (que consistia numa coisificação radical do humano).

E ainda por cima, são tantos os textos (e tantos nossos contemporâneos) que têm, de facto, o objectivo de defender o machismo, a homofobia, o racismo, o chauvinismo... A combatividade tem de ser mais precisa, bem direccionada.

Será que temos mesmo de escolher entre vandalismo e canonização? Eu, pelo menos, gosto é de conversar com os textos, quadros, músicas, filmes, do passado e do presente.

Vou voltar a ser muito chão: bom senso, recomenda-se.

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