quinta-feira, julho 24, 2008

No escrínio 39

Poema "Bagaço em Setembro" de Cesare Pavese, traduzido por Carlos Leite:


"As manhãs passam claras e desertas
nas margens do rio que de madrugada se enevoa
e escurece o seu verde enquanto espera o sol.
O tabaco que vendem na última casa
ainda húmida, na orla dos prados, tem uma cor
quase negra e um sabor sumarento: o fumo é azulado.
Também têm bagaço, da cor da água.

Chegou o momento em que tudo pára
e amadurece. As árvores ao longe estão quietas:
tornaram-se mais escuras. Escondem frutos
que ao mínimo abanão cairiam. As nuvens esparsas
têm uma polpa madura. Ao longe, nas avenidas,
todas as casas amadurecem à calidez do céu.

A esta hora só se vêem mulheres. As mulheres não fumam
e não bebem, sabem simplesmente estar ao sol
e recebê-lo tépido, como se fossem frutos.
O ar, cru por causa da névoa, bebe-se aos golos
como bagaço, todas as coisas exalam um sabor a bagaço.
Até a água do rio bebeu as margens
e macera-as no fundo, sob o céu. As ruas
são como as mulheres, amadurecem paradas.

A esta hora todos devíamos parar
na rua e ver como tudo amadurece.
Há até uma brisa que não altera as nuvens,
mas que basta para dirigir o fumo azulado
sem o romper: é um novo sabor que passa.
E o tabaco impregnou-se de bagaço. E assim as mulheres
não serão as únicas a gozar a manhã."



Este é o texto de um poeta gastrónomo (uma versão mais terrena do poeta alquímico) que pretende cozinhar as sensações que o seu texto recolhe do mundo para dar um sabor carnal (ou carnudo) à esperança. Pois tal como em "Paisagem V", fala-se aqui do princípio da luz diurna e do seu efeito na psicologia humana.

É um poema de um escritor assumidamente heterossexual. No sentido em que a diferença entre homens e mulheres (mais do que a mera diferença física, a distinta conformação psíquico-social dos dois géneros) é estruturante do modo como ele vê o mundo. O que está em causa no texto é a descrição de dois modos opostos de gozar a manhã: as mulheres fruem a manhã sem precisarem da mediação da matéria (como frutos que pura e simplesmente estão ao sol), enquanto o homem, invisível (ser de interior?), goza a manhã indirectamente, por meio da embriaguez (da conjugação entre bagaço, tabaco e atmosfera húmida vinda do rio).

O texto sinestésico de Pavese (vaivém temporal, luminoso e sexual) é, ele mesmo, uma forma de embriaguez (Pavese é homem). Mas note-se o cuidado de rodear as figuras femininas quase exclusivamente com a figura retórica da comparação, em detrimento da metáfora (elas não precisam de mudar, elas já estão).

Há aqui, portanto, dois tipos de trabalho em confronto. E Pavese só pede que os humanos parem o trabalho masculino (aquele que cansa, na exactíssima formulação deste heterodoxo, porque sincero, intelectual de esquerda). Porque o trabalho feminino, espiritual (o fruto que espera, a nuvem que permanece, a casa que protege) resume-se a acções libertadoras: amadurecer, parir (ou criar), ter esperança. Mesmo que já não possamos ler a mulher contemporânea deste modo (e ainda bem), fica no ar a pergunta: precisaríamos de mais do que isto?

Pavese pede que o Homem pare para aprender com a brisa que dirige o fumo azulado sem o romper: é a utopia que se lhe afigura possível.

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