segunda-feira, julho 07, 2008

Contos da lua vaga

Quando a ciência consegue (por fim) superar os diversos erros que fazem a História de cada uma das suas Descobertas e Invenções, quando atinge uma verdade consensual, irrefutável, o futuro que a isso se segue tem de ser forçosamente diferente. Depois de sabermos que as maçãs são mais importantes pela gravidade com que caem do que pela ligeireza com que se comem no Éden, não podemos voltar mais atrás. Pode haver aprofundamento do achado, mas não retrocesso (e por isso toda esta questão do criacionismo se me afigura francamente perturbante).

Todavia, não me parece que a História da Arte possa imitar (de modo simplista) este modelo de evolução (embora sempre o tenha tentado fazer).

Quando, no reino da palavra (em sentido amplo), se descobre algo de novo e justo ao nível do Conteúdo (por exemplo, quando o poeta Heraclito verbalizou que as águas que correm num rio nunca são as mesmas; ou quando o filósofo Baudelaire descobriu a beleza da Cidade), o efeito é, de facto, semelhante ao descrito no primeiro parágrafo. Não podemos voltar atrás. Sabemos algo de novo, de irrefutável, sobre nós mesmos.

Mas quando, no reino da palavra, se descobre algo de novo ao nível da Teoria, já tenho as maiores dúvidas sobre toda essa tralha ortodoxa dos posicionamentos reaccionários ou revolucionários (embora saiba que este meu posicionamento é pouco popular). Já somos milenarmente crescidinhos para sabermos que as bocas que os teóricos vão mandando não se escrevem a não ser enquanto provocações. O poeta Wittgenstein quis acabar com a filosofia, o filósofo Duchamp quis jogar xadrez com a pintura, e ainda por cá temos o Zizek e a Paula Rego. A própria História da Arte é a GRANDE narrativa das constante deposições da teoria-anterior-à-minha, e dessa grande narrativa, nem o pós-modernismo se livrou. Uma vez li que o escultor Alberto Carneiro defende que, ao longo do tempo, fomos evoluindo do ponto de vista conceptual/estético. Ou seja, o Michelangelo até fez umas coisas, mas o que hoje produzimos está mais avançado do ponto de vista intelectual. Será assim? Coloco profundas reticências (embora não duvide que as contribuições de Wittgenstein e Duchamp vieram trazer uma nova e decisiva dinâmica mesmo àquilo sobre o qual eles pensavam ter tido a última palavra).

Peço desculpa, o poetinha é mais céptico e, para além de não querer que o chateiem, acha mesmo que a História da Teoria é acima de tudo uma história da moda. Como explicar que depois de Oliveira e de Straub/Huillet, quando se descobriu que adaptar um livro não era simular a sua narrativa mas sim registar visualmente a palavra literária, o cinema tenha ficado exactamente na mesma a esse respeito? É que, francamente, isso não dava jeitinho nenhum (nem ao comércio nem à preguiça). Por muito que os Críticos vociferem, os Estetas façam propaganda, os Comissários manejem o polegar no circo da sobrevivência criativa, a verdade é que pode sempre aparecer um tipo que esteja atrás, à frente, ao lado, acima ou abaixo da Teoria cientifiquíssima que contém a última berra da verdade, e que faça a palavra reinar com a humanidade que dela se espera.

Rememos contra a corrente, a favor da corrente, sejamos reaccionários e revolucionários. Sejamos acima de tudo nós mesmos. E tratemos melhor o nosso gato do que a Teoria.

1 comentário:

Miguel Drummond de Castro disse...

Tratemos melhor o nosso gato do que a Teoria : - ))

Excelente!

Abraço,

Miguel