domingo, junho 08, 2008

O INACTUAL 24

"Blow up" - Michelangelo Antonioni (1966)


O fotógrafo que protagoniza o mais relevante dos filmes policiais, não só despreza qualquer disciplina profissional, como mantém uma incontrolável empatia sexual com a realidade susceptível de ser apreendida, seja pela sua câmara neurótica (autêntica evidência fálica quando accionada sobre mulheres), seja pela sua vontade dispersa (que investe bulimicamente na caça de objectos contraditórios, silenciosos troféus reveladores do desejo de Beleza).

Quando a personagem do pintor abstracto explica o mecanismo do seu trabalho, ele desvenda o modo como o próprio filme de Antonioni funciona. Primeiro, começa-se à sorte: são imagens soltas e incoerentes (mimos eufóricos, freiras, guardas, etc.) que abrem a ficção, criando uma indeterminação discursiva que é bem cara ao realizador. Depois tentamos agarrar algo: um personagem fio-condutor. Só que tal opção traz já em si um peso: o fotógrafo (personagem principal) pertence a um lugar e a uma época, pelo que toda a imagem é sempre datada. "Blow up" começa assim por ser um documento sobre uma geração, a swinging London dos anos sessenta.

Mas este é um filme acima de tudo filosófico (como todo o policial deveria ser). As imagens que o fotógrafo capta num parque, só na aparência eram tranquilas. Através de sucessivas ampliações, e da montagem das diversas fotos, o artista descobre um crime (uma Narrativa é sempre um parêntesis de desordem). Contudo, quando regressa ao lugar onde jazia o cadáver insinuado nas imagens, o corpo já havia desaparecido. Daqui podemos tirar várias conclusões lapidares:

a) a pulsão sensual que move o artista é sempre interrompida (ou será premiada?) pelo encontro com a pulsão contrária (aliás, eros e tanatos são indissociáveis no próprio funcionamento da sociedade que lhe fornece o contexto).

b) todo o pedaço de realidade encerra um mistério que não é visível a olho nu e só pode ser revelado pela arte.

c) a fotografia que melhor mostra o cadáver é tão estranha que há quem a compare a um quadro abstracto (exactamente como acontece na postura documental de Antonioni).

d) a realidade apressa-se a ocultar todos os testemunhos que poderiam levar à explicação do seu enigma, o que faz com que a arte seja a única (mas muito deficiente) prova que o Homem tem contra (ou será a favor?) a sua humanidade.

e) a única testemunha omnisciente e omnipresente do eterno delito é a Natureza (as árvores, demasiado evidentes na imagem e na banda sonora, viram mas não podem revelar tudo o que aconteceu).

O tema do filme é, portanto, a perseguição que o artista empreende em busca de um sentido, o que faz com que o personagem fio-condutor e o espectador fio-conduzido se sintam perdidos até à conclusão da obra (quando abandonamos o interesse pela Narrativa, e aceitamos que a desordem é constante). O que o fotógrafo descobre é que a verdade de qualquer imagem deve mais ao sujeito que a capta do que ao objecto que nela é captado. No famosíssimo final da obra, um grupo de mimos (os que vivem uma utopia da imaginação) jogam uma partida de ténis sem bola. A própria câmara produz eufóricos movimentos que levam o espectador a ver uma ausência-de-bola a viajar pelo ar. Pois o sentido não é mais que do que a vontade de sentido (a criação).

Conclusão: o criador progride desde o anonimato social (David Hemmings irreconhecível no meio do povo, no início) até à plena solidão filosófica (David Hemmings lúcido e isolado no meio da relva, no final).

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