sábado, junho 21, 2008

Nota Shyamalan

"The happening" é uma alegoria de M. Night Shyamalan (simplista como sempre), que põe em causa a forma como a comunidade humana se articula no presente: segundo o autor, o problema da civilização actual não derivará tanto da globalização (a um dado momento, a personagem de Mark Wahlberg pensa que se pode fugir à fúria do mundo vegetal através da redução do tamanho dos grupos humanos) mas da inexistência de gestos cegos de amor.

Não me parece que a visão do mundo de Shyamalan seja propriamente beata (como afirmou Luís Miguel Oliveira n' "O Público"). Suponho que ele até tenha a ambição de ser o Tarkovski do cinema foleiro (o autor russo achava mesmo que a fé poderia salvar a Humanidade). O problema é a maneira como transmite a sua visão - se em Tarkovski reconhecemos nobreza, em Shyamalan somos chocados pela ingenuidade.

É que o realizador de "O sexto sentido" é muito pouco culto (no sentido amplo do termo). E pouco culto em termos especificamente cinematográficos. Poderá ter visto muitos filmes, é certo, mas não os assimilou. Assim, o que vemos em "The happening" são erros e insuficiências ao nível da realização. Repare-se na possibilidade completamente desbaratada de utilizar o assunto em causa no filme para propor algo de novo ao nível do paisagismo... Shyamalan é, afinal, esteticamente indiferente às plantinhas que o seu discurso tanto quer louvar.

O rapaz é talentoso, isso é um facto, mas não consegue fazer-se credível.

1 comentário:

contra-regra disse...

Um amigo meu costuma repetir que Shyamalan não sabe de fato o que quer com sua filmografia. Acho que não chega a tanto. Ele deveria, sim, maneirar suas declarações para a imprensa e trabalhar com mais calma seus roteiros (para que não se percam em cansativos textos didáticos). Talento para isso ele tem. E de sobra.

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