quinta-feira, junho 12, 2008

No escrínio 38

Poema "Paisagem V" de Cesare Pavese, traduzido por Carlos Leite:





"As colinas insensíveis que enchem o céu
estão vivas ao romper do dia, depois ficam imóveis
como petrificadas pelos séculos e o sol contempla-as.
Recobri-las de verdura seria uma alegria
e na verdura, dispersos, os frutos e as casas.
Cada árvore, de madrugada, seria uma vida
prodigiosa e as nuvens fariam sentido.

Só nos falta um mar a cintilar forte
e a inundar a praia num ritmo monótono.
No mar não crescem árvores, não bulem folhas:
quando chove no mar, cada gota perde-se,
como o vento nestas colinas, que procura folhas
e só encontra pedras. De madrugada, há um instante:
desenham-se em terra os perfis negros
e as manchas vermelhas. Depois volta o silêncio.

Fazem sentido as vertentes lançadas para o céu
como casas duma grande cidade? Estão nuas.
Às vezes um homem da aldeia, ao passar, destaca-se
contra o vazio, tão absurdo que parece passear num telhado
da cidade. Faz lembrar a estéril mole
das casas amontoadas que absorvem a chuva
e se enxugam ao sol e não dão um fio de erva.

Para cobrir as casas e as pedras de verdura
- para que o céu faça sentido - é preciso mergulhar
raízes bem negras no escuro. Quando voltasse a madrugada
penetraria a luz bem dentro da terra
como um choque. Cada sangue seria mais vivo:
até os corpos são feitos de veias bem escuras.
E os aldeãos que passam fariam sentido."



A utopia é o projecto de transformação de um tempo cíclico (as estações, o nascimento e a morte, a prosperidade e a penúria, etc.) num tempo estavelmente progressivo. Neste belo poema, Cesare Pavese evoca precisamente esse vai-vem cronológico-emocional a que o Homem e o espaço que este ocupa estão sujeitos. A alvorada abre a vida à esperança, mas logo esta comoção decai, exactamente como a luz decai da sua pureza inicial até à sua extinção temporária.

Como inverter, então, a condição bumerangue? Pavese começa por desconfiar da estratégia do contágio afectivo. De facto, quando o texto se coloca sob a égide do condicional, as colinas chamam a si um conjunto de seres com quem gostariam de partilhar uma hipotética vida prodigiosa: a verdura, os frutos, as casas, as nuvens, o mar, o aldeão... No entanto, o vai-vem emocional é tão fatal que acaba por contaminar esses electivos afectos: num momento, o mar é só o que falta para compor o idílio (afinal é belo, fresco, útil), no momento seguinte, ele é sentido como uma outra forma de deserto (a sua superfície é monótona, o homem não o pode habitar). Para o escritor italiano, as correspondências baudelairianas também padecem de fluxo e refluxo (reserva que o autor d'"As flores do mal" teria entendido como um elogio).

Pavese parece mais entusiasmado com a estratégia de um povoamento literário. As associações verbais passam a ser canalizadas no sentido de um combate à desertificação (dito de outro modo, a poesia recebe uma missão política bastante específica). Quando o texto acolhe uma comparação, ela vem circunscrita à ideia de povoamento (as vertentes lançadas ao céu como casas duma grande cidade). Quando eclode a narratividade no poema, também segue o mesmo caminho humanizador (Às vezes um homem da aldeia, ao passar (...) parece passear num telhado da cidade). No entanto, Pavese conhece os limites da política. Sabe que não basta a edificação de uma civilização para que ela seja, de facto, civilizada: numa cidade, a estéril mole das casas amontoadas (...) não dão um fio de erva. Ainda assim, a verdade é que o poeta povoou (de hipóteses) a paisagem que o seu poema evoca.

O verdadeiro método, contudo, é aquele que é enunciado na última estância: a interiorização. É preciso mergulhar raízes bem negras no escuro, para que a luz (vida, esperança, mas acima de tudo, sentido) dê os frutos que promete. Pois se o Homem não conseguir chocar genuinamente o seu interior (que em Pavese é sempre uma forma de obscuridade), nem lirismo nem política o conseguirão afectar.

A utopia é a arterialização de todo o sangue.

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