domingo, junho 29, 2008

Crónica do Avô Paterno

Quando eu nasci (tarde e a más horas, enegrecido, esquelético, inerte, mudo: sem vontade de nascer, portanto), o meu avô paterno, que não era dado a diplomacias, exclamou: " - Este vai para os anjinhos!".

Nada de estranho: a geração que andaria agora pelos noventa anos de idade, ainda estava habituada a um modelo de natalidade fundado mais no azar da quantidade do que na concentração afectiva. Todavia, a verdade é que os anjos nos condenaram aos campos opostos da mortalidade, e por isso, quando eu cheguei à idade de estar nascido por completo (se bem que a pós-parteira da maturidade até hoje ainda não me tenha parido a diligência), o meu avô estava profundamente doente. Já o pai dele estivera entrevado durante mais do que uma década, e agora o seu exemplo (várias tromboses incapacitantes) começou a moldar a hipótese de uma maldição familiar, destinada a ser transmitida de varão em varão. Assim, o personagem que a minha infância acompanhou resumiu-se a um velhinho gasto, mirrado, parado, insano, com os dedos amarelados pelo cigarro e a boca viciada na arte do palavrão. Um dia, ele morreu.

Penso que serei sincero se afirmar que o meu avô paterno vive mais em mim como a memória de uma imagem do que como um afecto. São as voltas que o sangue dá (e como esta frase diz tudo). Hoje, a crónica do avô paterno só pode ser a crónica dos laços secundários (alguns ornamentais) que em torno da sua figura se formaram. Da teia que, sem querer, ele urdiu.

É, por exemplo, a crónica do Tio Capitão, o seu cunhado, assim chamado porque era militar profissional, e que o Bu-Guedes abominava com aquela irritabilidade sem fundamento que os machos sempre adquirem no envelhecimento. O Tio Capitão tinha um discurso de homem pio, ou melhor, de gentleman ingénuo. Quando me telefonava a desejar um bom aniversário, gostava de mostrar a sua patente lírica e mandava-me conduzir a minha vida de acordo com as estrelas (ao seu lado, a irmã do meu avô, que não era dada a diplomacias, mandava-o deitar as estrelas às urtigas). Como sofri várias heranças por afinidade, penso que foi mesmo dele que me veio a falta de competência na condução automóvel.

É a crónica da Teresa, a jovem empregada, uma rapariga pasoliniana cuja timidez era um traço inquestionavelmente social. Na altura, todos os adultos brincavam imenso com ela por causa dos benefícios de ir à farmácia de vez em quando (ela tinha casado há pouco), enigma cujo sentido só decifrei muito mais tarde (acho eu). Se de alguma coisa me lembro, é precisamente do sorriso da Teresa, um sorriso demasiado servil para ser malicioso.

É a crónica das alcunhas que tinham todos os habitantes de Vilar do Paraíso (na altura um limbo ruralóide, hoje um purgatório suburbano). Quando a minha mãe, educada em pleno centro do Porto, começou a conviver com os habitantes locais, julgou mesmo que havia pessoas que tinham sido baptizadas como Olinda Batata ou Azeiteiro. Já se sabe, isto de Éden só se aguenta se for temperado com muito humor.

É a crónica dos animais que sobrepovoavam a casa dos avós paternos: os cães (que ferraram o meu irmão, mas deixaram o medo comigo), as gatas de má vida, os borrachos (que eram tão fofinhos mas sabiam tão bem quando cozinhados - o meu primeiro dilema endocrino-ecológico), ou as tartarugas imorredoiras.

O meu avô era fundidor. E é assim que eu o vejo: como alguém cuja presença-ausente deu brônzea consistência a uma infinidade de modelos que me acompanham ao longo da minha travessia. Prévios anjos de gesso que a memória a partir dele endureceu em estátuas que, lutando contra a maldição, não me deixam ficar parado na ponte que diariamente construo (ou destruo?).

Vocalizo..

... a partir de um poema de Rimbaud:



A.e. .u. .a .i.ion .'est .en.on.ée à .ou. .e. ai..
A.e. eu. .u.eu. .es .i.e., .e .oi., et au .o.eil, et .ou.ou..
A.e. .o.u. .es a.êts .e .a .ie. - O .u.eu. et .i.ions!
.é.art .ans .'a.e.ion et .e .uit .eu.!

sábado, junho 21, 2008

Perfil 2008

O seguinte jogo, narcísico e inútil, surgiu-me como ponto de partida para a escrita de um livro (que ainda não sei se vou concretizar) cujo título será (ou seria) qualquer coisa do género: "Diário Pornográfico". Tratar-se-á (tratar-se-ia) de um conjunto de anotações, entre o ensaio rigoroso e a coscuvilhice porca (com laivos de confissão e de lirismo), sobre a questão do prazer (questão subjectiva, e por isso universal). Seria um bom exercício de auto-terapia de impudor, mas acima de tudo um manifesto político contra as morais de castidade, contenção e sacrifício que são propaladas por todas as religiões.

Talvez se algum dia eu estiver a tornar-me demasiado respeitado (e respeitável), eu arranje coragem para publicar o que tiver eventualmente escrito.

Por enquanto, fica aqui o meu perfil de fascínios e nojos (do ano 2008 d.c.), incompleto e achado por esforçada associação livre, que pode pelo menos funcionar como documento capaz de fazer luz sobre o tom que eu tento produzir nas minhas criações:




Gosto de
: queijo com mel, Max Ernst, camélias, berlindes, "The office" (versão inglesa), o Sul, oboé, diospireiros (mais do que diospiros), filmes porno, crónicas de Rui Tavares, valsa inglesa, "O cerejal", bicicletas, os Gato Fedorento, a canção "One for my baby (and one more for the road)", viajar, doces conventuais, blogues, o Carnaval, estudar, travellings (no cinema), champanhe doce, bed & breakfast hotels, cabelo grisalho, Victor Erice, música antiga, caracóis (vivos, não para comer), pulsos, chá de alcaçuz, Johnny Depp, Juliette Binoche, o Deus de Espinosa, seda, caligrafia árabe, epistolografia, Brooklyn, figurações do paraíso, papel vegetal, cafés (o lugar), a Neue Galerie (em Nova Iorque), cerveja preta, espanta-espíritos, Paul Klee, ficção científica, ténis (o desporto), comida indiana, pássaros, "The daily show with Jon Stewart", chocolate de culinária, a ideia do Japão (que nunca visitei), corpos atléticos sem obesidade nem ginásio, Mozart, sapatilhas, Monopoly, Camilo Castelo Branco, comboios, cozinhas, cavalos, Dylan Thomas, gelado de chocolate e menta, a língua russa, chapéus, "Some came running" (o filme), velas e incenso, Tarkovski, especiarias, alquimia, expressões idiomáticas, filmes passados em Paris, Amarante, Louis Garrel, Beatriz Batarda, felinos, sangria, praias tropicais, o outono, tango, ciência, ícones, borboletas, arroz basmati, Maria Gabriela Llansol, o Brasil, a Escócia, espuma no banho, o Musée Gustave Moreau (em Paris), Manoel de Oliveira, crepúsculos, calor, pubs, port de bras, iogurte, a Mafaldinha, limpar o pó, surrealistas, o Rio Douro, frutos silvestres, Fellini (que também fez um jogo destes), pizza, Veneza, gomas, tragédia, poesia.


Não gosto de: cerveja branca, Stratford-upon-Avon, potpourri, George Clooney, Calista Flockhart, o cubo de Rubik, futebol, sushi, a ideia da China (que nunca visitei), saxofone, o arco-íris, crónicas de Vasco Pulido Valente, valsa vienense, "O tio Vânia", Beethoven, o Trivial Pursuit, economia, passar a ferro, tenores, o Festival da Eurovisão, o Second Life, livros luxuosos, Werner Shcroeter, cabelo oxigenado, conduzir, o género romance, Pablo Neruda, soja, "The sound of music" (o filme), veludo, pepluns, leite simples, e-mails, a Broadway, beleza andrógina, a cor roxa, a Suiça, caniches, filmes históricos, Ferrero Rocher, fotos porno, automóveis, unicórnios, Jay Leno, melodrama, gravatas, o réveillon, Almeida Garrett, exercício físico, panorâmicas (no cinema), aviões, testes de Q.I., jazz de vanguarda, hamburguers do MacDonalds, dinossáurios, violência, vinho rosé, mil-folhas, neo-realistas, chá de hipericão, filmes de terror, Spielberg, discotecas, pliés, gelado de morango, aranhas, pop arte, Fátima, grelos, cotovelos, maçonaria.

Nota Shyamalan

"The happening" é uma alegoria de M. Night Shyamalan (simplista como sempre), que põe em causa a forma como a comunidade humana se articula no presente: segundo o autor, o problema da civilização actual não derivará tanto da globalização (a um dado momento, a personagem de Mark Wahlberg pensa que se pode fugir à fúria do mundo vegetal através da redução do tamanho dos grupos humanos) mas da inexistência de gestos cegos de amor.

Não me parece que a visão do mundo de Shyamalan seja propriamente beata (como afirmou Luís Miguel Oliveira n' "O Público"). Suponho que ele até tenha a ambição de ser o Tarkovski do cinema foleiro (o autor russo achava mesmo que a fé poderia salvar a Humanidade). O problema é a maneira como transmite a sua visão - se em Tarkovski reconhecemos nobreza, em Shyamalan somos chocados pela ingenuidade.

É que o realizador de "O sexto sentido" é muito pouco culto (no sentido amplo do termo). E pouco culto em termos especificamente cinematográficos. Poderá ter visto muitos filmes, é certo, mas não os assimilou. Assim, o que vemos em "The happening" são erros e insuficiências ao nível da realização. Repare-se na possibilidade completamente desbaratada de utilizar o assunto em causa no filme para propor algo de novo ao nível do paisagismo... Shyamalan é, afinal, esteticamente indiferente às plantinhas que o seu discurso tanto quer louvar.

O rapaz é talentoso, isso é um facto, mas não consegue fazer-se credível.

Ups

Por vezes, utilizo rima nos meus poemas. Nunca escondi que não aprecio música pesada, e gosto de manipular aquele efeito sonoro, o mais infantil da escrita poética, como se estivesse compor música doce ao estilo de Jacques Brel, Leonard Cohen ou Chico Buarque.

Conforme fui avançando no meu trabalho, comecei a cultivar um tipo de rima absolutamente imprevisível, casual. Ou seja, não há nenhuma regra fria (e absurda) a determinar os lugares do poema que devem forçosamente rimar, devendo o efeito sonoro surgir sempre como uma surpresa mais ou menos harmoniosa, menos ou mais racional, mas sempre produtora de um sentido inesperado.

Pratico, portanto, uma espécie de rima surrealista. O problema é que esse efeito é por mim friamente calculado com uma vontade obsessiva de precisão. A minha rima surrealista deriva de uma escrita anti-automática.

quinta-feira, junho 19, 2008

Ângulo

É fácil dizer, por exemplo, que o recurso à antítese na construção de um poema redunda sempre em cliché. De facto, em 99% da poesia que se socorre dessa ou de outras facilidades, o resultado é deplorável. No entanto, o poeta relevante é precisamente aquele que tenta, dia após dia, redescobrir e actualizar as razões de ser de cada instrumento (e de cada osso) do seu ofício. Não é o puritano que deixa de usar, mas o explorador que reinventa o uso.

sexta-feira, junho 13, 2008

Anexo

Este vídeo serve de anexo a "No escrínio 36".
É uma filmagem (de muito má qualidade) de um insecto a sorver o líquido interior de uma Euphorbia Lactea.

A ideia é tentar tornar os poemas de que vou falando o mais palpáveis possíveis. Mas se este género de ilustração não for relevante, agradeço que mo transmitam.

quinta-feira, junho 12, 2008

No escrínio 38

Poema "Paisagem V" de Cesare Pavese, traduzido por Carlos Leite:





"As colinas insensíveis que enchem o céu
estão vivas ao romper do dia, depois ficam imóveis
como petrificadas pelos séculos e o sol contempla-as.
Recobri-las de verdura seria uma alegria
e na verdura, dispersos, os frutos e as casas.
Cada árvore, de madrugada, seria uma vida
prodigiosa e as nuvens fariam sentido.

Só nos falta um mar a cintilar forte
e a inundar a praia num ritmo monótono.
No mar não crescem árvores, não bulem folhas:
quando chove no mar, cada gota perde-se,
como o vento nestas colinas, que procura folhas
e só encontra pedras. De madrugada, há um instante:
desenham-se em terra os perfis negros
e as manchas vermelhas. Depois volta o silêncio.

Fazem sentido as vertentes lançadas para o céu
como casas duma grande cidade? Estão nuas.
Às vezes um homem da aldeia, ao passar, destaca-se
contra o vazio, tão absurdo que parece passear num telhado
da cidade. Faz lembrar a estéril mole
das casas amontoadas que absorvem a chuva
e se enxugam ao sol e não dão um fio de erva.

Para cobrir as casas e as pedras de verdura
- para que o céu faça sentido - é preciso mergulhar
raízes bem negras no escuro. Quando voltasse a madrugada
penetraria a luz bem dentro da terra
como um choque. Cada sangue seria mais vivo:
até os corpos são feitos de veias bem escuras.
E os aldeãos que passam fariam sentido."



A utopia é o projecto de transformação de um tempo cíclico (as estações, o nascimento e a morte, a prosperidade e a penúria, etc.) num tempo estavelmente progressivo. Neste belo poema, Cesare Pavese evoca precisamente esse vai-vem cronológico-emocional a que o Homem e o espaço que este ocupa estão sujeitos. A alvorada abre a vida à esperança, mas logo esta comoção decai, exactamente como a luz decai da sua pureza inicial até à sua extinção temporária.

Como inverter, então, a condição bumerangue? Pavese começa por desconfiar da estratégia do contágio afectivo. De facto, quando o texto se coloca sob a égide do condicional, as colinas chamam a si um conjunto de seres com quem gostariam de partilhar uma hipotética vida prodigiosa: a verdura, os frutos, as casas, as nuvens, o mar, o aldeão... No entanto, o vai-vem emocional é tão fatal que acaba por contaminar esses electivos afectos: num momento, o mar é só o que falta para compor o idílio (afinal é belo, fresco, útil), no momento seguinte, ele é sentido como uma outra forma de deserto (a sua superfície é monótona, o homem não o pode habitar). Para o escritor italiano, as correspondências baudelairianas também padecem de fluxo e refluxo (reserva que o autor d'"As flores do mal" teria entendido como um elogio).

Pavese parece mais entusiasmado com a estratégia de um povoamento literário. As associações verbais passam a ser canalizadas no sentido de um combate à desertificação (dito de outro modo, a poesia recebe uma missão política bastante específica). Quando o texto acolhe uma comparação, ela vem circunscrita à ideia de povoamento (as vertentes lançadas ao céu como casas duma grande cidade). Quando eclode a narratividade no poema, também segue o mesmo caminho humanizador (Às vezes um homem da aldeia, ao passar (...) parece passear num telhado da cidade). No entanto, Pavese conhece os limites da política. Sabe que não basta a edificação de uma civilização para que ela seja, de facto, civilizada: numa cidade, a estéril mole das casas amontoadas (...) não dão um fio de erva. Ainda assim, a verdade é que o poeta povoou (de hipóteses) a paisagem que o seu poema evoca.

O verdadeiro método, contudo, é aquele que é enunciado na última estância: a interiorização. É preciso mergulhar raízes bem negras no escuro, para que a luz (vida, esperança, mas acima de tudo, sentido) dê os frutos que promete. Pois se o Homem não conseguir chocar genuinamente o seu interior (que em Pavese é sempre uma forma de obscuridade), nem lirismo nem política o conseguirão afectar.

A utopia é a arterialização de todo o sangue.

domingo, junho 08, 2008

"Blow up" - imagem

O INACTUAL 24

"Blow up" - Michelangelo Antonioni (1966)


O fotógrafo que protagoniza o mais relevante dos filmes policiais, não só despreza qualquer disciplina profissional, como mantém uma incontrolável empatia sexual com a realidade susceptível de ser apreendida, seja pela sua câmara neurótica (autêntica evidência fálica quando accionada sobre mulheres), seja pela sua vontade dispersa (que investe bulimicamente na caça de objectos contraditórios, silenciosos troféus reveladores do desejo de Beleza).

Quando a personagem do pintor abstracto explica o mecanismo do seu trabalho, ele desvenda o modo como o próprio filme de Antonioni funciona. Primeiro, começa-se à sorte: são imagens soltas e incoerentes (mimos eufóricos, freiras, guardas, etc.) que abrem a ficção, criando uma indeterminação discursiva que é bem cara ao realizador. Depois tentamos agarrar algo: um personagem fio-condutor. Só que tal opção traz já em si um peso: o fotógrafo (personagem principal) pertence a um lugar e a uma época, pelo que toda a imagem é sempre datada. "Blow up" começa assim por ser um documento sobre uma geração, a swinging London dos anos sessenta.

Mas este é um filme acima de tudo filosófico (como todo o policial deveria ser). As imagens que o fotógrafo capta num parque, só na aparência eram tranquilas. Através de sucessivas ampliações, e da montagem das diversas fotos, o artista descobre um crime (uma Narrativa é sempre um parêntesis de desordem). Contudo, quando regressa ao lugar onde jazia o cadáver insinuado nas imagens, o corpo já havia desaparecido. Daqui podemos tirar várias conclusões lapidares:

a) a pulsão sensual que move o artista é sempre interrompida (ou será premiada?) pelo encontro com a pulsão contrária (aliás, eros e tanatos são indissociáveis no próprio funcionamento da sociedade que lhe fornece o contexto).

b) todo o pedaço de realidade encerra um mistério que não é visível a olho nu e só pode ser revelado pela arte.

c) a fotografia que melhor mostra o cadáver é tão estranha que há quem a compare a um quadro abstracto (exactamente como acontece na postura documental de Antonioni).

d) a realidade apressa-se a ocultar todos os testemunhos que poderiam levar à explicação do seu enigma, o que faz com que a arte seja a única (mas muito deficiente) prova que o Homem tem contra (ou será a favor?) a sua humanidade.

e) a única testemunha omnisciente e omnipresente do eterno delito é a Natureza (as árvores, demasiado evidentes na imagem e na banda sonora, viram mas não podem revelar tudo o que aconteceu).

O tema do filme é, portanto, a perseguição que o artista empreende em busca de um sentido, o que faz com que o personagem fio-condutor e o espectador fio-conduzido se sintam perdidos até à conclusão da obra (quando abandonamos o interesse pela Narrativa, e aceitamos que a desordem é constante). O que o fotógrafo descobre é que a verdade de qualquer imagem deve mais ao sujeito que a capta do que ao objecto que nela é captado. No famosíssimo final da obra, um grupo de mimos (os que vivem uma utopia da imaginação) jogam uma partida de ténis sem bola. A própria câmara produz eufóricos movimentos que levam o espectador a ver uma ausência-de-bola a viajar pelo ar. Pois o sentido não é mais que do que a vontade de sentido (a criação).

Conclusão: o criador progride desde o anonimato social (David Hemmings irreconhecível no meio do povo, no início) até à plena solidão filosófica (David Hemmings lúcido e isolado no meio da relva, no final).

sexta-feira, junho 06, 2008

Declaração de voto

Faço parte daquele vasto grupo de pessoas que anseiam pela derrota dos Republicanos nas próximas eleições dos Estados Unidos da América: o mundo precisa desta mudança. E se eu tivesse direito a isso, votaria em Barack Obama sem pensar duas vezes.

No entanto, não sofro de Obamania (nem de Obamamania, que é uma forma mais adiantada do padecimento). Não tenho interesse absolutamente nenhum por campanhas eleitorais, não tenho a menor paixão pelo virtuosismo dos grandes oradores, nem um frissonzinho pela suposta aventura do jogo político. Pratico apenas uma cidadania do presente: tento perceber as qualidades e os podres da acção dos que foram eleitos e já se encontram no exercício do poder (até estou preparado para uma eventual Barraca Obama, que é um trocadilho de mau gosto que mil bloggers terão igualmente encontrado).

Ainda por cima, custa-me estar fascinado por um homem que, apesar de afirmar que não acredita na eficácia da pena de morte, não defende a sua abolição. Será apenas para não afugentar por completo o eleitorado de uma América doentiamente conservadora? Este género de coisas, nunca as hei-de compreender.

Graffiti

Quando eu for um escritor desconhecido, espero que atribuam o nome de uma rua à minha pessoa.
Não farei por menos: passarei a responder apenas se me chamarem Rua dos Mártires da Liberdade, Sunset Boulevard ou Marché aux Puces de St-Ouen.

Anexo



Esta imagem funciona como anexo da Crónica de Chidiya Tapu.

É, obviamente, uma fotografia pirosíssima. Mas a verdade é que o jovem casal que eu apaparizzei, estava mesmo a caminhar em direcção ao sol poente (estes indianos...). Se a coloco no blogue, é apenas para ilustrar aquela Crónica (o que na altura não consegui fazer), para provar que eu estive mesmo lá, e para contribuir com uma imagem de tão belo lugar para esta rede onde, aparentemente, todos podemos ir a todo o lado.