sábado, maio 24, 2008

O ACTUAL 19

"La graine et le mulet" - Abdellatif Kechiche


Kechiche praticamente reduz toda a planificação deste filme a grandes-planos, e os actores que assim enquadra despejam o seu discurso com uma intensidade aflitiva. As suas raivas não são mero jogo de cinema nem verborreia de intelectual: eles estão em desespero e têm de berrar, chorar, fazer barulho até aos limites do aceitável, para que ninguém duvide da sinceridade daquilo que encarnam.

O filme é, aliás, francamente incomodativo (faz lembrar "Oldboy" de Park Chan-wook). E tudo se deve ao dispositivo genial que o realizador encontrou para tornar a sua ideia pungente: a resolução dos problemas das personagens (a ausência de dignidade com que são tratados os membros da diáspora árabe em França, a dificuldade de quebrar o hermetismo da célula familiar) tem de surgir a tempo de um jantar ser servido. Através de um mecanismo de herança hitchcockiana, o filme acelera a vontade que o espectador tem de happy end até transformar a fome física em fome espiritual.

Ao ponto de tudo se tornar insuportável: desde a dança do ventre (aqui simbólica dos movimentos desesperados do estômago) até às reclamações perfeitamente legítimas da nora russa traída. Nem sensualidade nem compaixão: o espectador está transtornado por uma urgência que é tão visceral quanto política.

Num filme que nos remete para o genuíno sentido da Economia (a ousadia empresarial do velho desempregado tem toda a nobreza das coisas que são generosamente úteis), Kechiche confronta-nos com uma interrogação terrível e lúcida: só a morte resolve rapidamente a vida?

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