terça-feira, maio 13, 2008

No escrínio 37

Poema "Crónica" de António Barahona:



A minha juventude foi sobre-real
em maviosa fúria mais amor de louco:
deambulava lúcido pla noite fora,
a sono solto, sob a chuva, sol a sol;
cada gota de chuva era uma pérola
irregular, e o sono um sonho exausto

Redescobri, depois, as leis da linguagem:
o poema a si próprio se escrevia,
sem minha intervenção e só com minha
caligrafia branca sobre a página

Agora, que começo a ser incómodo
e minha juventude é d'arte sacra,
as coisas só se voltam do avesso
pra dar com Deus de caras na palavra




O género literário Crónica tem o seu fundamento etimológico na ideia de tempo. E de facto, o poema de António Barahona descreve os passos de uma determinada biografia (aparentemente, a do seu autor) segundo o rigor de uma ordem cronológica.

Em primeiro lugar, o sujeito evoca uma juventude que, de um ponto de vista meramente vital, se pode considerar surrealista; ao que se segue uma menção a um posterior trabalho literário, no qual aquele surrealismo tomou consciência de si e se tornou (também) projecto estético; e tudo termina com o assumir de uma velhice entregue às revelações da fé. Na verdade, Barahona, que fez parte do mítico grupo do Café Gelo, ter-se-á convertido ao islamismo a meio da sua vida.

O verso mais belo do poema ("e a minha juventude é d'arte sacra") é também o seu verso-chave. Pois ao declarar que, quando o poeta se começa a tornar incómodo (os velhos só trazem canseiras aos novos...), as duas estâncias anteriores adquirem uma delicada autoridade religiosa (e museológica), esse verso obriga-nos a uma espécie de teologia da releitura. Ou seja, o lirismo verdadeiro só explode quando voltamos a ler o texto, deslocando o seu sentido do surrealismo para a teologia (buscando o seu avesso, digamos).

Assim (e de acordo com a religião em que fui educado, e não a que Barahona abraçou: a poesia dá-nos estas liberdades), posso agora ler o sobre-real como sobrenatural, atribuir a maviosa fúria e o amor de louco ao Deus diferenciado no Antigo e no Novo Testamento, compreender a noite como a obscura angústia de João da Cruz, assumir que a vida é um mero sonho que descansa no grande sono escatológico, intuir que as leis se referem aos Dez Mandamentos, suspeitar que abstenção racional da escrita automática resulta da intervenção divina e que as gotas de chuva se tornam pérolas não por metáfora mas por milagre.

O incómodo de Barahona funciona, portanto, num duplo sentido: qualquer surrealista se enfureceria se o avesso das suas coisas pudesse degenerar em religião, e raros seriam os crentes capazes de aceitar uma fé fundada no reverso das premissas libertárias do surrealismo.

E que avesso, afinal, é este? O poeta expõe-no com ambiguidade. Vejamos: perante uma expressão como "minha caligrafia sobre a página branca", qualquer leitor de imediato intuiria que a caligrafia aludida estaria desenhada numa cor contrastante com a alvura do suporte. No entanto, quando o poeta escreve "minha caligrafia branca sobre a página", não é certo se a página é igualmente branca ou se possui uma cor que permita ler essa caligrafia. Assim, não sabemos se estamos perante um vazio (cujo avesso seria o Todo divino) ou perante uma subversão adolescente (destinada a ser domesticada por esse avesso a que o tempo sempre obriga).

Enfim, independentemente de mais ou menos biografia, o que Barahona parece querer dizer (com maior ou menor consciência disso) é que é muito difícil não endeusar a juventude.



(Imagem retirada do blogue Fernanda Matias Atelier)

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