quinta-feira, maio 01, 2008

Crónica do Sino

"Only the bell that follows does not wait
galloping motherfaced across the shadowy fields
across the shadowy fields at nightfall
to abrase you to the bone with rough chime"

Malcolm Lowry





Vivemos numa época em que os sinos não são ouvidos. E no entanto, eles permanecem aí, à espera de que o badalo do silêncio os torne de novo possíveis. Raros, sabem que a sua música já não vale apenas bronze, mas ritma o que pode ser ouro no quotidiano.

Comecemos. De madrugada, estou sempre preso à rotina onírica. Por lá não encontro propriamente relógios derretidos, mas o pressuposto da fundição é omnipresente: o tempo funciona como molde infinitamente variável que faz com que todos os instantes do sonho sejam formas musicais.

Quando acordo, o meu sino profano é uma gata de feitio pouco laudatório. Pelo menos, ela fica num sino quando alguém lhe dá a primeira refeição do dia. E enrosca-se dentro de mim para que eu nunca me sinta mudo e vazio. Sua voz é apenas um carril do carrilhão felino.

Enquanto conduzo, a rádio vai debitando a sua insuportável liturgia de optimismo. Nada é mais odioso que um locutor convencido de que o seu horário dá saúde e faz crescer. Automóveis, trânsito pop, notícias de S. Petersburgo, o mundo, sobre tudo isso paira o sol na sua torre ainda tão longe do mar e do fim.

Guloso como sou, um grilo falante repica-me nos ouvidos à hora do almoço: é a dra. Helena Coutinho que me promete um inferno de diabetes e ataques cardíacos se eu não emagrecer. Os alimentos desfilam em procissão, inatingíveis como todas as imagens de devoção. Obrigo-me a uma santidade alimentar: na praça do meu prato passa apenas o papa-móvel da dra. Helena Coutinho.

Por volta das três, começo a trabalhar. Money makes the world go round, mas eu tenho espírito ptolomaico, e ainda acho que o movimento é oração exclusiva do sol. Assim mo diz a permanente combustão que no meu íntimo exige liberdade, sensualidade, alegria. O sino está agora dentro de mim, como uma resistência incandescente.

Depois, o paradoxo: quando a sagrada luz devolve a sua torre às presas da grande noite mamífera, fico então disponível para a palavra. Sobre o dorso do poema, descubro o caminho sonoro para as índias do sul. Reencontro sem acaso a minha vera cruz: aquela que eu escolhi.

E por fim o sono: a Fada Sininho que me devolve à terra do nunca. Completo.

2 comentários:

L. disse...

e por fim surge o grao mestre da loja do sino dizendo que é hora de pagar os favores e dar emprego a dois iniciados.

L. disse...

o surrealismo não é inane - embora o pudesse ser, com o uso de aspas...

e olhando ao significado de inane, também o poderia ser, pois poderia interpretar "vazio" como elogio.

felizmente estamos em poesia - e na minha formA DE a ver, ha poucos limites e muita liberdade.

e olhando aos canones que parecem cada vez mais limitar a nova poesia, a que tem sido protegida e divulgada ultimamente, mais vontade dá de inverter a coisa e ver no inane o sublime - so para chatear, como poderiam fazer cesariny e antonio maria... porque o sublime anterior ficou rodeado de traças.

quanto ao post... prefiro não explicar - emborta a leitura que fuizeste me esteja a dar ideias...

o inane ser surreal... o surreal inane

sur-ina-m-e?