sábado, maio 31, 2008

Crónica da Avó Paterna

Sempre que penso na minha avó paterna, desaparecida há já bastantes anos, visita-me a imagem das andorinhas a preparem-se para migrar no mês de Setembro.

Durante a infância, eu ia sempre passar quinze dias a casa dos pais do meu pai no fim das férias de Verão (os meus tios e primos, que viviam lá, viajavam para o Algarve nessa altura, o que significava que havia quartos vazios para eu e o meu irmão ocuparmos). Como em casa da avó Lina havia muitos ninhos de andorinhas, eu gostava de ficar a observar as rotinas dos últimos voos nortenhos destas aves, e de ir mentalmente anotando a quantidade decrescente da sua presença. Na altura, nada disto me entristecia, mas agora, a recordação do fim de uma era da preguiça afigura-se-me insuportável.

A casa da avó era enorme, não à maneira do mausoléu de um jogador de futebol, mas com aquele charme dos lugares antigos, construídos sem rigor, marcados pelo tempo e pela falta de sofisticação. Enquanto o meu irmão se ia esmurrando a andar de bicicleta no pátio, eu preferia arquitectar uma solidão mágica na grandeza do interior. Senhor de um vasto palácio onde tudo era possível, eu sonhava mundos vagamente paralelos, perscrutava os livros dos meus primos (li alguns enredos de Shakespeare num livro de banda desenhada), e escrevia textos ridículos para concursos literários (uma vez, armado em anglófilo, participei num concurso de drama radiofónico da BBC cujo tema era "Pride and prejudice", e que eu, ignorante de todas as Janes Austen deste mundo, traduzi por "Orgulho e prejuízo").

A avó paterna era conhecida pelos seus disparates, que faziam parte do anedotário familiar. Até ao fim da vida, nunca conseguiu pronunciar o nome Vanessa (o que teria agradado ao António Variações), conversava baixinho quando na televisão se segredava, e se alguém lhe falava com sotaque brasileiro, ela respondia logo com aquela musiquinha de quem já vive no Rio de Janeiro há décadas. Com ela, eu passava longo tempo a discutir o progresso das telenovelas que na altura faziam furor. Enfim, reconheço que os pastelões da Globo foram, para mim, uma importante escola de ódio (ah! quando a Tónia Carrero desmascarava a vilã Teresa Rachel...). De outro modo, ter-me-ia tornado um lorpa incorrigível. A minha avó é que nunca conseguiu aprender nada com as telenovelas.

Havia também as especialidades culinárias, tudo muito pouco saudável. Desde gordurosíssimos panados ao lendário e espesso timbale de frango, eu deliciava-me nesta idade da inocência-pré-asae, e certamente ia educando o meu corpo para a tendência de engordar.

Uma vez, estava eu alojado no quarto do meu primo Ricardo, a mosquitada não me deixou dormir. Toda a santa noite fui assombrado pelo ruído de dezenas (não exagero) de aviões low cost, e pela dor prazerosa das suas picadas. Não preguei olho, a insónia foi completa. Quando amanheceu, os mosquitos começaram a tentar sair para a luz pelo vidro da janela. Saciados, queriam partir. Então eu, verdadeiro Pedro o Cru, matei, um a um, todos os meus torturadores. Foi uma festança de sangue e vingança. O último a rir fui eu.

E ainda hoje, não sei se já deixei a minha avó partir, ou se ainda não realizei o luto que, dada a infantilidade da idade que eu tinha quando ela migrou, me esqueci de fazer.

terça-feira, maio 27, 2008

Nota "Salut"

No poema "Salut", escrito por Mallarmé para servir de introdução ao seu Livro (e de saudação ao futuro leitor deste), a palavra envers (que matreiramente traduzi por do avesso) provoca uma estranha sensação de incómodo (parece desnecessária para a compreensão do texto).

O seu uso pode ser explicado pela seguinte ideia: se na vida (no informe) o nosso destino é o afogamento (o facto de sermos humanos pela metade torna-nos inadaptados a esse caos onde aparentemente se respira de modo diverso), o poema consegue salvar-nos apenas porque nele o informe está contido (na verdade, a vida continua a ser caótica, mas a escrita permite que o homem deixe por instantes de estar ele mesmo contido na vida para a poder, distanciadamente, observar). Há aqui uma inversão das regras do jogo.

Se a sereia (o cantor malévolo) se perde e silencia no nada, o poeta moderno contorna a existência (solidão, recife, estrela) até ela ser comunicável.

Colunistas vertebrais

Assim como eu gostava que os socialistas fossem menos aristocráticos, que os comunistas fossem mais inteligentes e os bloquistas tivessem algum sentido de humor, também gostava que os ideólogos de direita fossem mais honestos.

Há gente que passa uma vida inteira a batalhar contra a intromissão castradora do Estado nas nossas vidas particulares. Não poderia ser mais solidário com essa luta. No entanto, preferia que esses mesmos assumissem que o universo capitalista fora-do-Estado também não garante liberdade absolutamente nenhuma. Que somos todos escravos da publicidade, do consumo, dos desígnios abstractos e indiferentes do polvo empresarial (da economia, enfim), e que a única vantagem do capitalismo (cuja sofisticação advém de, em vez de recorrer à força física, usar o imaginário como matéria-prima da opressão) é a de ser um sistema que nos deixa com uma tola e inconsequente ilusão de liberdade.

sábado, maio 24, 2008

"La graine et le mulet" - imagem

O ACTUAL 19

"La graine et le mulet" - Abdellatif Kechiche


Kechiche praticamente reduz toda a planificação deste filme a grandes-planos, e os actores que assim enquadra despejam o seu discurso com uma intensidade aflitiva. As suas raivas não são mero jogo de cinema nem verborreia de intelectual: eles estão em desespero e têm de berrar, chorar, fazer barulho até aos limites do aceitável, para que ninguém duvide da sinceridade daquilo que encarnam.

O filme é, aliás, francamente incomodativo (faz lembrar "Oldboy" de Park Chan-wook). E tudo se deve ao dispositivo genial que o realizador encontrou para tornar a sua ideia pungente: a resolução dos problemas das personagens (a ausência de dignidade com que são tratados os membros da diáspora árabe em França, a dificuldade de quebrar o hermetismo da célula familiar) tem de surgir a tempo de um jantar ser servido. Através de um mecanismo de herança hitchcockiana, o filme acelera a vontade que o espectador tem de happy end até transformar a fome física em fome espiritual.

Ao ponto de tudo se tornar insuportável: desde a dança do ventre (aqui simbólica dos movimentos desesperados do estômago) até às reclamações perfeitamente legítimas da nora russa traída. Nem sensualidade nem compaixão: o espectador está transtornado por uma urgência que é tão visceral quanto política.

Num filme que nos remete para o genuíno sentido da Economia (a ousadia empresarial do velho desempregado tem toda a nobreza das coisas que são generosamente úteis), Kechiche confronta-nos com uma interrogação terrível e lúcida: só a morte resolve rapidamente a vida?

terça-feira, maio 20, 2008

Escala mística

In god, there's no difference between a black hole and a glory hole.

Tradução 8

Poema de Stéphane Mallarmé, traduzido por mim:




Salve!


Nada, esta espuma, virgem verso
Designando apenas o flute;
Longe assim se afoga uma trupe
De sereias várias do avesso.


Navegamos, ó meus diversos
Amigos, eu já sobre a popa
Vós luxo de proa que corta
A vaga de raios e Invernos;


Me anima a bela inebriação
Sem medo da trepidação
A fazer de pé este brinde


Solidão, recife, estrela
A tudo de que não prescinde
A branca inquietação da vela.



(O texto original pode ser consultado no meu site do myspace)

sábado, maio 17, 2008

Partilha 33

(Como neste post, eis mais um take out de "um pouco mais ou menos de serenidade")



dizer-se


um ser mais indomado
que quando perde a dor
se diz em perca

e assim de si mesmo repescado
faz seu caminho de dom
como um peixe dentro de lágrima

terça-feira, maio 13, 2008

Galeria 33




António Barahona aliás Muhammad Rashid

No escrínio 37

Poema "Crónica" de António Barahona:



A minha juventude foi sobre-real
em maviosa fúria mais amor de louco:
deambulava lúcido pla noite fora,
a sono solto, sob a chuva, sol a sol;
cada gota de chuva era uma pérola
irregular, e o sono um sonho exausto

Redescobri, depois, as leis da linguagem:
o poema a si próprio se escrevia,
sem minha intervenção e só com minha
caligrafia branca sobre a página

Agora, que começo a ser incómodo
e minha juventude é d'arte sacra,
as coisas só se voltam do avesso
pra dar com Deus de caras na palavra




O género literário Crónica tem o seu fundamento etimológico na ideia de tempo. E de facto, o poema de António Barahona descreve os passos de uma determinada biografia (aparentemente, a do seu autor) segundo o rigor de uma ordem cronológica.

Em primeiro lugar, o sujeito evoca uma juventude que, de um ponto de vista meramente vital, se pode considerar surrealista; ao que se segue uma menção a um posterior trabalho literário, no qual aquele surrealismo tomou consciência de si e se tornou (também) projecto estético; e tudo termina com o assumir de uma velhice entregue às revelações da fé. Na verdade, Barahona, que fez parte do mítico grupo do Café Gelo, ter-se-á convertido ao islamismo a meio da sua vida.

O verso mais belo do poema ("e a minha juventude é d'arte sacra") é também o seu verso-chave. Pois ao declarar que, quando o poeta se começa a tornar incómodo (os velhos só trazem canseiras aos novos...), as duas estâncias anteriores adquirem uma delicada autoridade religiosa (e museológica), esse verso obriga-nos a uma espécie de teologia da releitura. Ou seja, o lirismo verdadeiro só explode quando voltamos a ler o texto, deslocando o seu sentido do surrealismo para a teologia (buscando o seu avesso, digamos).

Assim (e de acordo com a religião em que fui educado, e não a que Barahona abraçou: a poesia dá-nos estas liberdades), posso agora ler o sobre-real como sobrenatural, atribuir a maviosa fúria e o amor de louco ao Deus diferenciado no Antigo e no Novo Testamento, compreender a noite como a obscura angústia de João da Cruz, assumir que a vida é um mero sonho que descansa no grande sono escatológico, intuir que as leis se referem aos Dez Mandamentos, suspeitar que abstenção racional da escrita automática resulta da intervenção divina e que as gotas de chuva se tornam pérolas não por metáfora mas por milagre.

O incómodo de Barahona funciona, portanto, num duplo sentido: qualquer surrealista se enfureceria se o avesso das suas coisas pudesse degenerar em religião, e raros seriam os crentes capazes de aceitar uma fé fundada no reverso das premissas libertárias do surrealismo.

E que avesso, afinal, é este? O poeta expõe-no com ambiguidade. Vejamos: perante uma expressão como "minha caligrafia sobre a página branca", qualquer leitor de imediato intuiria que a caligrafia aludida estaria desenhada numa cor contrastante com a alvura do suporte. No entanto, quando o poeta escreve "minha caligrafia branca sobre a página", não é certo se a página é igualmente branca ou se possui uma cor que permita ler essa caligrafia. Assim, não sabemos se estamos perante um vazio (cujo avesso seria o Todo divino) ou perante uma subversão adolescente (destinada a ser domesticada por esse avesso a que o tempo sempre obriga).

Enfim, independentemente de mais ou menos biografia, o que Barahona parece querer dizer (com maior ou menor consciência disso) é que é muito difícil não endeusar a juventude.



(Imagem retirada do blogue Fernanda Matias Atelier)

quarta-feira, maio 07, 2008

Partilha 32

(Publico aqui um poema que não me parece suficientemente forte para fazer parte do corpo do livro que estou agora a escrever, e cujo título é "um pouco mais ou menos de serenidade". Por favor, peço à vintena de leitores do cabodaboatormenta que não considere isto um insulto... Simplesmente, a tensão mais descontraída de um blogue permite que nele depositemos objectos que prejudicariam a fluência mais exigente de um livro.
O texto foi inspirado por uma história verídica vivida por um primo meu.)



palavra nova

uma festa
a festa
............(uma)


os copos quase todos esvaziados
(de adultos)
mas como o vazio hesita
na sua própria indefinição
restam algumas gotas de imarcescível
no fundo da forma de alguns desses co(r)pos
(e que súbito
que estival
tão grande um mar depositado
no tão pequeno o espaço do acessível)

a criança
liberta de parentes e parêntesis
vai debicando
(não grão a grão)
essas águas turvadas de (e)moção
que não fazem maré mas bebedeira

só mais tarde
a vida um pouco mais fechada em dicionário
saberá a criança o sentido
(a ressaca)
do imarcescível

nesse momento
(momento banal
o momento)
estará a criança pronta para murchar

***

por que razão existem palavras difíceis?
é para significarem melhor?
na floresta da vida
nunca saberemos se a língua
é uma avó convalescente
ou apenas um predador

mas ninguém nos tirará
(da ousadia)
o capucho vermelhinho

quinta-feira, maio 01, 2008

Crónica do Sino

"Only the bell that follows does not wait
galloping motherfaced across the shadowy fields
across the shadowy fields at nightfall
to abrase you to the bone with rough chime"

Malcolm Lowry





Vivemos numa época em que os sinos não são ouvidos. E no entanto, eles permanecem aí, à espera de que o badalo do silêncio os torne de novo possíveis. Raros, sabem que a sua música já não vale apenas bronze, mas ritma o que pode ser ouro no quotidiano.

Comecemos. De madrugada, estou sempre preso à rotina onírica. Por lá não encontro propriamente relógios derretidos, mas o pressuposto da fundição é omnipresente: o tempo funciona como molde infinitamente variável que faz com que todos os instantes do sonho sejam formas musicais.

Quando acordo, o meu sino profano é uma gata de feitio pouco laudatório. Pelo menos, ela fica num sino quando alguém lhe dá a primeira refeição do dia. E enrosca-se dentro de mim para que eu nunca me sinta mudo e vazio. Sua voz é apenas um carril do carrilhão felino.

Enquanto conduzo, a rádio vai debitando a sua insuportável liturgia de optimismo. Nada é mais odioso que um locutor convencido de que o seu horário dá saúde e faz crescer. Automóveis, trânsito pop, notícias de S. Petersburgo, o mundo, sobre tudo isso paira o sol na sua torre ainda tão longe do mar e do fim.

Guloso como sou, um grilo falante repica-me nos ouvidos à hora do almoço: é a dra. Helena Coutinho que me promete um inferno de diabetes e ataques cardíacos se eu não emagrecer. Os alimentos desfilam em procissão, inatingíveis como todas as imagens de devoção. Obrigo-me a uma santidade alimentar: na praça do meu prato passa apenas o papa-móvel da dra. Helena Coutinho.

Por volta das três, começo a trabalhar. Money makes the world go round, mas eu tenho espírito ptolomaico, e ainda acho que o movimento é oração exclusiva do sol. Assim mo diz a permanente combustão que no meu íntimo exige liberdade, sensualidade, alegria. O sino está agora dentro de mim, como uma resistência incandescente.

Depois, o paradoxo: quando a sagrada luz devolve a sua torre às presas da grande noite mamífera, fico então disponível para a palavra. Sobre o dorso do poema, descubro o caminho sonoro para as índias do sul. Reencontro sem acaso a minha vera cruz: aquela que eu escolhi.

E por fim o sono: a Fada Sininho que me devolve à terra do nunca. Completo.

Do poema "Poética exaustiva"

"De mim só ficará grande: grande alegria,
pássaros de papel, amores e teologia"

António Barahona

Nota "We own the night" 2

Exactamente como "East of Eden" de Elia Kazan, "We own the night" é uma reescrita do mito bíblico de Caim e Abel.