terça-feira, abril 22, 2008

Teoria que só serve para mim

São muitos os criadores contemporâneos que permanecem obsessivamente ocupados com a tarefa de dessacralização dos Textos pertencentes ao Cânone Ocidental. Basta entrarmos num museu de arte contemporânea para logo nos dizerem que este artista quer confrontar o espectador com as suas expectativas convencionais (tradicionais, portanto) perante uma obra de arte, que outro quer denunciar o equívoco do lazer cultural, e etc., e etc.

Tema interessante, mais do que isso: útil. E no entanto, pouco fértil e com tendência para a estagnação. Ok, já percebemos que a cristalização institucional é uma perversão dos pressupostos provocadores de toda a actividade criativa. Não é preciso explicar mais. Ainda por cima, o equívoco mantém-se. Aliás, parece mesmo ter-se fortalecido: o mercado artístico nunca foi tão exuberante como agora. O bolso aprecia estas ironias pós-modernas...

Ora, um texto nunca tem culpa do circo que em torno de si é criado. Por isso eu tento não ter a mesma atitude perante todos os textos (nem os rejeito em bloco, nem os aceito em bloco), antes prefiro posicionar-me sempre perante aquilo que é intrínseco a cada um deles. Por exemplo, parece-me claro que um velho auto religioso, mais do que apenas tratar um assunto sagrado, tem nele latente a pretensão de se impor a si mesmo como texto sagrado. Neste caso, o meu tratamento da obra (como ensaísta ou tradutor ou encenador ou cineasta...) teria de contemplar o meu posicionamento perante essa questão específica. E então, eu poderia optar por uma perspectiva radicalmente dessacralizadora (blasfema, até), por aceitar aquela carne verbal como uma revelação inquestionável, por ser ambíguo à maneira do Manoel de Oliveira...

Diferentes textos exigem diferentes atitudes políticas. A peça "A vida é sonho" obriga o seu encenador a definir-se filosoficamente, os sonetos de Petrarca implicam toda a experiência sentimental e sexual do tradutor, o adaptador de Proust ao cinema tem de tomar um partido perante a duração convencional (duas horas) de um filme, o analista do "Fausto" deve mesmo polemizar em torno do lugar desse texto no Cânone...

Que me importa a mim se Tchékhov se tornou um gigante da escrita dramática, se aquilo que ele escreveu fala comigo em pé de igualdade e com todo o poder da evidência? Tenho aliás a certeza de que o autor de "Ivanov" não teria a menor vontade de se tornar uma múmia ou uma vaca sagrada. A sua escrita é demasiado dinâmica e polémica para aceitar qualquer deformação institucional (ou mediática).

De acordo com esta teoria que só serve para mim, eu nunca tentaria minar um texto tchekhoviano. Preferiria, tendo nas mãos "A gaivota", investigar-lhe, por exemplo, a dimensão simbólica. No fim da peça, Nina diz: "Sou uma gaivota. Não, não é isso...", como se a luta a favor ou contra o símbolo não fosse um dilema de estetas e filósofos, mas uma questão de sobrevivência (parar na cristalização, ou superá-la). De certo modo, a sua vitória sobre Treplev (dramaturgo de simbolismo vazio e superficial) é essencialmente essa: ela conseguiu implicar a criação na própria vida. A peça pode então ser retrospectivamente lida, inquirida, a partir desse ponto de vista.

E muitos outros pontos de vista (de partida) há para colher num texto tão denso. Se a vida da personagem Macha se estende atrás dela como um vestido negro, um texto pode estender-se à nossa frente como uma caminho sem fim.



(Imagem de Kevin Cornell)

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