domingo, abril 20, 2008

Snobismos

No jornal "PÚBLICO" do passado dia 12 de Abril, vinha publicada uma notícia que descrevia a vaga internacional de reacções fortemente críticas provocada por uma instalação do artista plástico costa-riquenho Guillermo Vargas Jiménez.

Na composição da sua instalação (um comentário a um caso de passividade institucional perante o assassínio de um emigrante por dois rottveiler), o mencionado artista utilizara, para além de outros elementos, um cão vadio esfomeado, preso por um coleira, e uma frase escrita com ração de cão numa parede a que o animal não podia aceder. Nenhum visitante da galeria de exposições tentou livrar o cão do seu sofrimento (mas não é esta gente que detesta metáforas?). Correu então o boato de que o bicho, entretanto desaparecido, teria morrido à fome.

O artigo aflora alguns dos argumentos mais ou menos favoráveis ao gesto do artista, aos quais este post não pretende dar resposta. Gostaria apenas de marcar a minha posição em relação a quatro ideias que foram levantadas pelo acontecimento.


1. Alguns comentadores defendem Jiménez dizendo que o verdadeiro artista tem uma posição privilegiada, na medida em que a criação é sempre uma manifestação de liberdade, e a mediocridade constitui o seu único limite. Ou seja, o criador não deve submeter o seu trabalho a nenhuma outra censura que não seja a exigência de qualidade.

Já disse isto num outro post: utilizando a linguagem de Espinoza, eu considero que a arte e a vida são dois atributos da mesma substância. Desde logo isto impede que eu aceite aquela ideia muito em voga que postula que, se a pulsão violenta do Homem for saciada na arte, o indivíduo conseguirá suportar as regras de civilidade exigidas pela vida. Nem sequer consigo entender o que isso quer dizer: o que me interessa na vida é também o que me interessa na arte (e o mesmo vale para aquilo que repudio). Quando a violência entra na minha arte, fá-lo a despeito da minha vontade, da minha alegria (como acontece na vida).

Mas acima de tudo, este princípio impede que eu, pelo simples facto de escrever umas coisas, me considere um privilegiado. De facto, a liberdade é o sangue azul da arte. Todavia, essa não é uma nobreza que eu queira manter em regime de exclusividade, pois o que eu pretendo é oferecê-la como tentação a todos os seres da minha espécie (independentemente de eles a aceitaram ou não). Exijo liberdade não especialmente para mim, mas para todos. E isso desde logo obriga a que os princípios que articulam a liberdade na arte tenham um teor semelhante àqueles que articulam a liberdade na vida (descontadas as idiossincrasias inerentes às características de cada atributo). A criação é praticada, então, com base no mesmo sopro ético da existência.

Isto não é auto-censura, moralismo, ou compromisso político. É simples coerência.


2. Os artistas também se escudam no argumento de que certas obras foram chocantes no seu tempo, mas depois acabaram por ser valorizadas criticamente e conseguiram mesmo entrar no cânone. Argumento de falsíssimos rebeldes (no fundo, é a consagração que os move), baseado na utilização da História como caução e numa espécie de serôdio romantismo do escândalo. Nada de novo, nada de interessante.


3. Argumenta-se ainda que, como um animal nunca poderia manifestar o seu consentimento (ou a falta deste) perante o caso, então esse consentimento deixa de ser relevante. Ora, é precisamente porque não temos meios de conhecer a vontade de um animal (perante dados tão complexos) que não podemos usar a nossa suposta superioridade intelectual de forma irresponsável (não é isso que nos preocupa no caso das pessoas em coma?). Se os animais estão numa posição de inferioridade, precisam então de ser protegidos pelo Homem. Caso para dizer ao artista: meta-se com alguém do seu tamanho.


4. Por fim, Jiménez acusa os seus detractores de hipocrisia, na medida em que, na altura da exposição, ninguém fez nada para salvar o cão. E estende a acusação a todo o estado do mundo, falando da indiferença absoluta pelo sofrimento humano e ecológico. Ora, a verdade é que há quem tente salvar cães vadios, e todos os dias. E há quem lute contra a fome, contra a exclusão, contra a doença, há quem milite pela paz. Não será muita gente, claro (quase tudo o que é bom é uma excepção). E não é gente isenta de erro ou de defeito. Mas não vale dizer "ninguém salvou o cão". Se ninguém o salvou na galeria de gente fina (se não houve excepção), isso não mostra propriamente o estado do mundo, mas dá a ver o estado ético das elites que frequentam o meio artístico.

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