terça-feira, abril 01, 2008

Post de extrema

1. Quando um conceito contribui inequivocamente para me afastar do sofrimento, eu aceito-o sem filosofia.

Pelo contrário, nunca tomo um conceito que me possa trazer prejuízo, como um dado adquirido. Por exemplo, perante a ideia de autoridade, eu armo logo todo um edifício de dúvida.

Nos recentes debates sobre o incidente no Liceu Carolina Michaelis, tem-se falado de autoridade como se ela constituísse um valor evidente que não precisa de ser questionado. Ora, para mim, isso não é nada evidente.

Eu penso o assunto da única forma que ele me é suportável. Pois a verdade é que não se pode educar uma criança para uma sociedade outra que não seja aquela que existe (e está em mutação) durante esse processo educacional. Se assim não for, o adulto estará a condenar a criança à total inadaptação (por favor, não confundir aquela hipótese-limite com uma educação baseada em valores libertários e combativos).

Para que essa integração se possa dar, há toda uma predisposição anárquica na criança que tem de ser firmemente moldada, e isso só pode ser feito através de processos de autoridade. Assim, para uma criança é tão importante a recepção de ternura quanto a aprendizagem de um conjunto de regras, conceitos, conhecimentos, etc., que lhe vão permitir a gradual sociabilização.

A responsabilidade do educador mede-se tanto pela firmeza com que gere essa autoridade como pelo progressivo afrouxamento da sua aplicação à medida que a criança se torna adolescente e jovem adulto. Chega um momento em que é preciso respeitar a autonomia desse indivíduo em crescimento, e o pai sábio é aquele que o sabe fazer na hora certa e na medida certa. A educação de uma criança, pois, tanto implica a sua preparação para a vida como a delicada arte de não matar a dimensão humana que ela tem em potência.

A autoridade do professor de segundo e terceiro ciclos é, por conseguinte, um assunto que dá pano para mangas.


2. No presente caso, não se tem falado de um pormenor que me parece importante: a alteração de comportamento do ser humano em situações de euforia gregária. Eu dou aulas individuais e, por isso, por muito difíceis que possam por vezes ser as relações professor-aluno, nunca tenho problemas sérios de disciplina. No entanto, basta ver o que acontece num desafio de futebol, para perceber que há situações de sociabilidade que podem facilmente degenerar em violência. Se a isso juntarmos o factor juventude (a idade gregária por excelência), percebemos a dificuldade que existe no exercício do ensino colectivo.

O que pretendo dizer é que me parece que um professor tem de possuir, para além de noções de pedagogia, instrumentos funcionais de gestão de psicologia colectiva (cuja eficácia não pode apenas depender do eventual carisma de x ou y docente).


3. Das duas uma: ou me falam da necessidade de transmitir aos jovens o valor do esforço, do trabalho, etc. (a ideia de sacrifício produtivo é, de resto, tão americana quanto o foi soviética), ou me falam da aprendizagem leve, feita a brincar, sem imposições.

Devo dizer que a característica que mais me seduziu no melhor professor que alguma vez tive, foi a sua capacidade de transmitir um conhecimento profundo (detalhado, intenso, extenso) através de uma enorme paixão. E penso que toda a gente até está de acordo com isto.

O que é preciso é levar o adolescente a adquirir o gosto do conhecimento. Ou seja, a dimensão lúdica deve ser integrada no processo de conhecimento. Não se pode, portanto, fazer os jovens engolir matéria (isso é uma manifestação gratuita de autoridade, é uma anestesia tirana). Mas também não se pode infantilizar o conteúdo do conhecimento (todos os professores responsáveis sabem que, quanto mais exigentes e sérios são, melhores são os resultados dos alunos) nem aderir ao mito de que é o jovem quem constrói o conhecimento em liberdade (é claro que é preciso transmitir as ferramentas da investigação e da independência de espírito, e que isso deve ser mesmo um objectivo prioritário, mas não se pode adorar a criança ao ponto de valorizar a sua capacidade para conhecer sem experiência e sem capacidade crítica).

A escola é um sítio de estudo. Sério. É preciso formar o interesse por esse estudo.


4. Por fim, defendo que não se pode desvalorizar o problema da determinação causada pela pertença a uma classe social (e cultural) quando se está a debater estas questões. O facto de não se ser marxista (como, aliás, já ninguém é), não significa que se tente iludir aspectos da vida que estão tão provados cientificamente quanto são facilmente observáveis nas nossas existências quotidianas. Senão, os conservadores militantes estarão a fazer o mesmo papel dos religiosos fanáticos que não aceitam o darwinismo.

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