sexta-feira, abril 04, 2008

Porque sim

Das grandes peças finais de Anton Tchékhov, há duas que eu amo profundamente (e sobre as quais gostaria de trabalhar), e outras duas que me deixam ligeiramente distante.

Mas não encontro grandes motivações racionais para estes afectos.

Devo antes dizer que, quando evoco os textos de "A gaivota" ou de "O cerejal", rapidamente me chegam à memória diversos momentos dramáticos de forte luminosidade emocional (a despeito de toda a tragédia que os enredos contemplam). Não sei porquê, não registo igual recordação quando penso sobre "O tio Vânia" ou sobre "As três irmãs". Para além de que, nas primeiras duas obras, posso conviver com gente como Nina e Treplev (adolescentes tão tontos quanto encantadores), e também com Ranevskaia, a doce, maternal e volátil proprietária do cerejal.

Além de tudo isto, vi no passado uma adaptação cinematográfica de "A gaivota" em que os dois principais papéis femininos eram representados por Vanessa Redgrave e Simone Signoret (duas actrizes da minha eleição). A Cornucópia encenou-a com tanta gravidade que, pela primeira vez na vida, julguei que ia desatar a chorar no teatro. E eu li a peça na adolescência, numa altura em que tanto me identificava com o satanismo baudelairiano como com a fragilidade carente dos jovens de Tchékhov.

E depois, há o cerejal. Quem pode resistir a um texto cujo protagonista é um jardim em flor?


(Imagem de Isaak Levitan)

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