terça-feira, abril 08, 2008

O ACTUAL 18

"Coeurs" - Alain Resnais


Numa das cenas finais do último filme de Resnais, a personagem de Sabine Azéma (actriz sempre hilariante) defende que, a haver um qualquer fogo do Inferno, ele existe apenas dentro de cada um de nós (e nesta vida terrena). O filme organiza-se, portanto, em torno do binómio interior/exterior (a visão dual é, de resto, talvez o processo discursivo predilecto do autor).

Portanto, os personagens chegam aos interiores arquitectónicos (casas, empregos, bares, etc.) com restos da neve que cai na rua sobre a roupa (Paris parece estar imerso num nevão eterno). O exterior é gelado, o interior é quente (não me parece, aliás, que a ideia de fogo do inferno seja negativa ou que tenha qualquer real peso teológico; é antes a formulação simples de um estado de inquietação psicológica). Ora, na cena referida no parágrafo anterior (a conversa final entre Azéma e o impecável Pierre Arditi), a neve começa a cair dentro de casa: o gelo passa a ser interior. E logo a seguir, o filme termina com um inesperado sol meteorológico que quebra o nevão constante: o fogo passa a ser exterior.

Que significado tem esta inversão em termos narrativos? A ficção telenovelesca (bem ao gosto do Resnais pós-"Providence") vai levando cada indivíduo à total desolação interior (leva-os a bater no fundo). Em compensação, Arditi é capaz de pôr a sua personagem a concluir, sem ênfase, que não sabe o que vai acontecer no futuro. Resnais parece querer afirmar que a esperança, a esperança genuína, surge apenas quando se sofreu com tanta intensidade que o futuro fica, radicalmente, em aberto (vazio, portanto). Quando o coração gela por completo, o real pode aquecer-nos com um subtil sol de inverno.

Num filme em que se fala de sexo sem qualquer tonalidade infernal (a primeira motivação das personagens na procura do amor é a possibilidade de foda, e de boa foda, aliás), Azéma interpreta uma espécie de anjo que vem consolar os infelizes com a bem-aventurança da sensualidade (devolve o desejo ao seu colega na imobiliária, leva a morte ao velho que dela precisa). Tudo isto me faz lembrar o universo do delcioso Ermanno Olmi.

Mas a análise da actividade afectiva não fica completa sem um estudo sobre a ficção. Pois quando a última cassete de vídeo partilhada entre os dois colegas da imobiliária não tem gravada nenhuma cena erótica (como todos suporíamos), ficamos sem saber se de facto alguma vez houve uma cena dessas em alguma das cassetes anteriores, ou se tudo não terá passado de uma ilusão do personagem de Dussolier. Assim sendo, quando Azéma faz o seu show erótico para o velho acamado, talvez esse seja um momento em que o perverso realizador serve, ao próprio espectador, uma ilusão (um pouco como em "Lágrimas e suspiros" de Bergman, quando uma personagem, que previamente se havia suicidado perante os nossos olhos, reaparece viva e de boa saúde). Se o espectador assumir, retrospectivamente, esta dúvida, talvez compreenda (de forma profundamente visceral) o quão delirante é o jogo das paixões e dos desejos.

A neve, omnipresente no filme, faz rima com as partículas que caem sobre os corpos nus dos amantes no início de "Hiroshima, mon amour", e com as partículas que compõem os interlúdios abstractos de "L'amour à mort". De algum modo, Resnais compôs uma espécie de trilogia das partículas. Só que, enquanto no filme de 1959, elas simbolizavam a poalha do passado, e no drama-eutanásia elas brilhavam como indagações sobre o futuro (sobre o Além), em "Coeurs" elas assumem todo o peso com que o presente nos pode subjugar.

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