quarta-feira, abril 30, 2008

Nota "We own the night"

James Gray declara-se grande admirador de Elia Kazan. A mim parece-me que essa filiação não deriva apenas de uma sintonia estética, mas tem um significado mais profundo.

Como Kazan, Gray tem a noção do sentido trágico da existência. E também como Kazan, sabe que o mundo é um jogo de forças entre o ímpeto progressista e a reacção conservadora. Assim, os dois autores procuram furiosamente a ambiguidade.

No entanto, tanto o realizador de "Splendor in the grass" como o responsável deste excelente "We own the night" acabam sempre por revelar, nas entrelinhas, a sua opção pelo conservadorismo. Não porque o considerem inequivocamente mais correcto, mas porque ele é quase sempre mais forte do que qualquer vanguarda, e por isso mais útil à coesão social.

A família de sangue acaba então por triunfar sobre a família de espírito. O filme não é uma apologia da polícia (ao que parece, o realizador tem recebido esse insulto), mas uma apologia da resignação. É o oposto exacto de Fassbinder (que também reconhece a fragilidade da vontade revolucionária, mas prefere ser derrotado a aceitar o compromisso).

"We own the night" começa com imagens da sensualidade exuberante da namorada do personagem de Joaquin Phoenix. E termina com este actor a lamentar silenciosamente a perda dessa felicidade e a dizer ao irmão que o ama. A própria conexão da homossexualidade (o que choca é serem dois homens a trocarem declarações de afecto, não o facto de serem irmãos) ao sentido da tragédia é prova (eventualmente não assumida) da postura reaccionária de James Gray.

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