sábado, abril 26, 2008

Nota "O medo come a alma"

O remake do melodrama "All that heaven allows" de Douglas Sirk, realizado por Rainer Werner Fassbinder nos anos setenta, faz avançar a sua matriz inicial de duas maneiras concretas: por um lado, radicaliza o contexto humano que está na base do drama (o amor impossível entre uma grande dama abastada como Jane Wyman e um jardineiro sex-symbol como Rock Hudson era bastante menos impossível do que o amor que no filme de 1974 une uma velha criada asquerosa a um emigrante árabe algo marginal); por outro lado, ao formalismo naif de Sirk, Fassbinder faz corresponder as figuras próprias da modernidade cinematográfica (gosto pelas cores primárias, estilização do trabalho dos actores, enquadramento usado para denunciar os jogos de força que estão em campo, etc.).

No entanto, o que mais me perturbou no visionamento deste clássico moderno foi o fechamento em vértice da impossibilidade do amor que ele tenta narrar.

Pois o amor entre uma idosa branca e um homem de outra raça e bastante mais novo começa por ser impossibilitado pelo preconceito. A comunidade em peso rejeita a liberdade polémica daquele afecto. No entanto, ao fim de algum tempo, as pessoas acabam por aceitar a relação.

Mal isto acontece, o cancro da impossibilidade entre mais dentro e mais fundo no amor: agora é o próprio par que descobre tensões no exíguo espaço que vai de um a outro. O homem tem uma virilidade demasiado jovem, tem saudades da sua cultura, sente-se um marginal na Alemanha, e tudo isso perturba a possibilidade do Casal. No entanto, ao fim de algum tempo, a memória da paixão inicial acaba por lançar uma nova possibilidade de esperança. O par dança (literalmente) o seu futuro.

Mal isto acontece, a impossibilidade torna-se física: o emigrante adoece com uma úlcera crónica provocada pelas más condições de vida que tem no país de acolhimento. O filme termina com esse estreitamento definitivo da liberdade.

O que é interessante é que todas estas impossibilidades (mesmo as mais improváveis) não são assimiláveis a uma condição metafísica, antes têm origem no funcionamento implacável da sociedade. É que Fassbinder foi provavelmente o mais rigoroso dos cineastas políticos.

Sem comentários: