domingo, abril 13, 2008

No escrínio 36

Poema "Euphorbia Lactea" de Manuel Gusmão:



"É como se uma onda no ar se imprimisse
mais perto ou mais longe; como se um baixo-relevo
ondulante à nossa vista fizesse
a copa de uma pequena árvore que
lenta se desdobrava na horizontal, enquanto
rápida se envaginava no mínimo tronco castanho
de que era, afinal, um cacto.

Mas era também, enervada a verde, a branca
carnação de um cravo que mais tarde explodirá
por toda a sua pele, do castanho caule mínimo
à estranha e agressiva copa, em mil mínimas
flores rosa-chá sangrando rosa-velho.

Áspero, bulboso e carnudo, o cacto parece feito
daquele mesmo leite que promete em todas as suas feridas
por onde dará as flores que se anunciam já nos estilhaços
que de fora ferem a pele ou nas frias lanças erguidas
que a defendem. Só que é ácido e espesso esse leite
que o cacto ejacula quando a tua mão de arma branca
armada lhe toca para espiar o sangue venenoso que corre dentro."




A primeira estância do poema propõe duas produtivas comparações. Por um lado, a planta Euphorbia Lactea (curiosidade: tem origem indiana) é vista como uma onda que, como todas as ondas, pode quebrar a maior ou menor distância. Por outro lado, o cacto é dividido numa copa que simultaneamente se desdobra devagar e se encaixa rapidamente no seu tronco. Duas comparações antitéticas (a primeira sublima-se na metáfora do ar impresso, a segunda revela o ser afinal real que está por trás da retórica). E em cada comparação, dois movimentos de sentido contrário. E mesmo se, tanto a vagina como a copa de uma árvore (especialmente quando esta é desenhada por uma criança) são baixos-relevos, o facto é que a vagina releva na parte de baixo do corpo, e a copa se ergue no mais alto ponto da árvore.

O último livro do poeta Manuel Gusmão expõe toda a sua inquietação em torno daquilo que ele chama a terceira mão. A terceira mão é a que pertence a Carlos de Oliveira, a que Herberto Helder magnifica, a do leitor, aquela que se corta a outrem para escrever um texto pessoal (ideias retiradas de outro texto da mesma obra). A terceira mão é, portanto, a alteridade, seja esta referente ao passado (os autores predilectos ou as memórias), ao presente (o corpo do ente amado) ou ao futuro (o leitor).

A partir de uma aparente evocação lírica de um vegetal, o texto neste escrínio debate a possibilidade especificamente metafórica do número dois se abrir ao número três. Assim, as comparações da primeira estância (o número um da retórica, tese ironicamente anunciada no tempo presente) recebem a sua antítese na descrição quase realista (mas inequivocamente relegada para o pretérito imperfeito) da segunda estância. No entanto, é nesse momento que surge o futuro do verbo explodir, anunciando as flores que hão-de surgir em pleno cacto, e que no seu apogeu farão com que poesia (ansiedade ofegante) e real (História) se tornem indistinguíveis.

Assim sendo, o jogo da metaforização só adquire legitimidade quando o objecto do poema parece feito daquilo que promete. Já noutro post, eu defendera que a metáfora é essencialmente uma manifestação da temporalidade, e "Euphorbia Lactea" (claramente transplantado do imaginário de Carlos Oliveira) parece vir ao encontro da minha tosca intuição. O futuro é o braço que conduz à terceira mão. Muito mais do que uma vulgar síntese, o devir confunde-se com a abertura ao outro.

O que tem consequências tanto ao nível emocional (o cacto tem aqui toda a evidência de um falo; ora, a partir do momento em que uma terceira mão assume o papel de masturbar um indivíduo, está encerrado o capítulo das práticas eróticas solitárias e inaugurado o caminho que levará ao amor), como ao nível político (todo o texto, violentíssimo, está cheio de expressões retiradas ao venenoso léxico guerreiro, e não me parece inocente que Gusmão, militante comunista, traga a palavra cravo para esta sua liça).

Afinal, se o autor diz que o leite branco da planta é um sangue, é porque já nele pressente as flores avermelhadas que na planta hão-de explodir.



(Nota: um texto com esta ambiguidade pode conter em si possibilidades de leitura quase antagónicas. No limite, ele até pode ser o exorcismo de uma angústia face a uma doença genital.)

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