domingo, abril 13, 2008

Freud complica

O teórico e encenador americano Lee Strasberg construiu o seu mito teatral (capaz de suscitar as mais exuberantes reverências ou rejeições) com base na ideia de que um actor deve representar a sua personagem através da sua própria memória emocional. Dito de outro modo, o Método do americano incita o intérprete a trabalhar a diluição de fronteiras entre a sua psicologia e a psicologia da personagem que tem de assumir. A teoria resultou de um entendimento deturpado dos processos de encenação desenvolvidos pelo russo Stanislavski e, de certo modo, tinha os textos dramáticos de Tchékhov como horizonte fundador e como meta artística.

Ao que parece, a única encenação de Tchékhov feita por Strasberg foi um fiasco.

Dando o devido desconto às injustiças que as reacções a quente quase sempre provocam na recepção de um objecto artístico, assim como às documentadas dificuldades com que a produção em causa teve de lidar, a verdade é que, visto de longe, o Método de Strasberg parece um pouco ingénuo.

Com base no meu conhecimento da história do cinema, pressinto que um actor apenas se revela a si mesmo a partir do seu ponto de indiferença. Ou seja, a exposição da persona do intérprete só se dá quando este não a força (e até talvez seja mais profunda quando ele a tenta impedir). Se a personagem é, por definição, uma mentira (um artifício), a verdade só pode ser revelada através do mesmo tipo de imprevisibilidade que assiste ao acto falhado e a outras manifestações mais ou menos inconscientes do pensamento genuíno.

O actor vem à tona da personagem quando o seu ser faz disso um caso de vida ou morte emocional.

1 comentário:

Amet disse...

"O Real emerge nos interstícios da realidade."