sexta-feira, abril 04, 2008

Acção

Os actores reclamam sempre que o cinema é um director's medium. Basicamente pretendem dizer que, enquanto a performance teatral está acima de tudo dependente do seu trabalho, um filme é sempre produto da manipulação de um realizador e sua equipa (quantas vezes não ficará o intérprete surpreendido pela maneira como é mostrada a sua criação no ecrã).

Isto não me parece, contudo, uma inevitabilidade. Em jeito de diagnóstico apressado, eu apontaria três causas prováveis para este estado de coisas:


1. No cinema, quase nunca se faz o trabalho lento e minucioso de preparação de um papel como acontece na prática teatral. Para mim, isto é quase escandaloso: tanto é o dinheiro que se empata na produção de um filme (salários de futebolista, tecnologia quase-militar, protagonismo dado à publicidade, e etc.), e parece não haver uma maneira de tornar viável o trabalho de profundidade e detalhe que, afinal, deveria constituir o núcleo da sétima arte (a sua justificação humana).


2. Por outro lado, a estética do plano-sequência (através da qual o actor poderia controlar melhor o resultado do seu trabalho) não conseguiu impor-se ao nível da produção generalizada. Mesmo a crítica de algum modo a despreza (o magnífico cineasta Theo Angelopoulos, virtuoso daquela figura formal, tem sido consecutivamente insultado pelos Cahiers du Cinéma). Não estou a dizer que todo o cinema deveria tomar o plano-sequência como modelo. Afirmo apenas que ele me parece mais consentâneo com uma partilha de responsabilidade entre realizador e actor.


3. Por fim, o modelo de montagem que é hoje predominante parte do princípio de que o cinema é o exercício dos predadores da emoção. Agora sim, parece-me que a montagem hitchcockiana (usada para manipular por completo o espectador e que, de resto, era genial) deveria constituir a excepção e não a regra das práticas fílmicas. É preciso deixar que a figura humana que assombra o ecrã e a figura humana que sonha na sala escura comuniquem em liberdade, mútuo respeito e com todo o tempo necessário para que a respiração e a emoção se processem.

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