terça-feira, março 25, 2008

A pálpebra

No intrincado processo que gere a observação humana do mundo, a poesia ocupa sempre a posição da pálpebra.

Não no sentido de escape ao conhecimento e à lucidez. Nem sequer é um repouso. A poesia é aquela cortina que, por brevíssimos instantes, se fecha, e assim nos permite engolir o real, deixando-nos aliviados para a mastigação visual que se segue. A poesia é o instante em que cada ser dá por si. Aliás, diz quem sabe que devemos desconfiar daqueles homens que não pestanejam.

A poesia é também o momento do sono, quando o mundo é cozinhado no wok onírico como uma hipótese de libertação. Diz quem sabe que não aguentaríamos a vigília se não tivéssemos os sonhos dormentes. Eu prefiro dizer que a poesia é a eternidade em que cada ser está em si.

E ainda há a morte, quando mãos queridas nos encerram dentro das pálpebras. Se na ciência a morte é assunto limitado, na poesia ela adquire a abundância da epopeia. Então, a poesia é o que fica do ser.

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