sexta-feira, março 21, 2008

O bailado do pensamento

Quando Stanislavski encenou "A gaivota" de Tchékhov, uma das suas mais famosas opções estéticas foi a colocação dos actores de costas para o público, durante a representação da peça escrita pelo personagem Treplev, no Acto I.

Essa quase-revolução (digo quase porque apenas descobrimos o que já foi esquecido) foi feita em nome de um realismo que se queria tão exterior quanto íntimo. No entanto, talvez sem que Stanislavski tivesse noção disso, o facto é que essa disposição dos actores acabou por funcionar igualmente como artifício teatral: estava recriada a ilusão da quarta parede.

O que Stanislavski redescobriu foi uma nova posição para o Homem em palco. Isso aumentou as possibilidades estritamente expressivas das artes da performance, mas mais ainda multiplicou as direcções possíveis ao pensamento (por exemplo, o filme "Vivre sa vie" de Jean-Luc Godard é famoso pelos planos de costas de Anna Karina, contrários a todo o realismo formatado por Hollywood).

Cada indivíduo que contribui para o pensamento, fá-lo sempre à maneira de um coreógrafo. Descobre um novo passo, uma nova posição, uma nova geometria. E as razões que o levaram a essa nova postura, não são necessariamente aquelas que os seus futuros utilizadores vão evocar.

Como num bailado, a descoberta de que o sol, e não a Terra, era o centro do sistema solar começou por ter um sentido essencialmente religioso, mas logo isso acabou por ser decisivo na evolução de uma astronomia isenta de teologia. Na História do Pensamento, não trocamos só de lugar, mas acima de tudo de ponto de vista sobre o lugar.

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