terça-feira, março 11, 2008

No escrínio 35

Poema "Tecendo a manhã", de João Cabral de Melo Neto:


Um galo sozinho não tece uma manhã:
ele precisará sempre de outros galos.

De um que apanhe esse grito que ele

e o lance a outro; de um outro galo

que apanhe o grito que um galo antes

e o lance a outro; e de outros galos

que com muitos outros galos se cruzem

os fios de sol de seus gritos de galo,

para que a manhã, desde uma teia ténue,

se vá tecendo, entre todos os galos.



2.

E se encorpando em tela, entre todos,

se erguendo tenda, onde entrem todos,

se entretendendo para todos, no toldo

(a manhã) que plana livre de armação.

A manhã, toldo de um tecido tão aéreo

que, tecido, se eleva por si: luz balão.






Nem sempre uma obra exaltante consegue perenizar o seu efeito de exaltação. O filme "O couraçado Potemkine" de Sergei Eisenstein permanece, é certo, uma obra-prima de força afectiva. Mas como podemos aceitá-lo sem um sentimento de amargor depois de tudo o que sabemos sobre a História do comunismo? Eu, pelo menos, não posso.

Neste pequeno poema, João Cabral de Melo Neto conseguiu evitar todo e qualquer risco de aparecimento de rugas, sem precisar de elixires de simbologia eterna nem de cirurgias interpretativas.

É claro que estes galos que, com a sua voz, vão tecendo os diversos fios que hão-de fazer a manhã, estão no texto a ocupar o lugar dos poetas. É curiosa esta escolha do galo para alter-ego, sintomática da sensibilidade cabralina (trata-se de um bicho bastante prosaico, sem voo, destinado à procriação ou à panela). Relevante será ainda a ideia de que um poeta único nunca seria capaz de fundar uma aurora: a comunidade encontra-se aqui defendida em todo o seu esplendor. No entanto, apesar de ser indiscutível, esta é uma interpretação demasiado pesada a que o poeta, por coquetterie, provavelmente resistiria (João Cabral, educado pela pedra, dizia-se insolúvel na água).

E a verdade é que estes galos são também os meros galos que, de facto, cantam durante o nascer do dia. O poema pode resumir-se a uma evocação lírica da manhã (como fez Rimbaud num dos textos das "Illuminations"). Aí se encontram várias ideias sedutoras: o artesanato do tempo (na verdade, ainda não o conseguimos industrializar, podemos apenas iludi-lo), o sol físico que nasce para todos, a alba como algo inevitável (ergue-se por si mesma).

Creio, porém, que o poema não precisa de ser insultado nem pelos columbófilos da simbologia nem pelas galinhas do literal. A relação de Melo Neto com a criação metafórica é demasiado profunda e rigorosa para poder ser diminuída.

Ao representar o poeta pelo galo, o autor afirma que o criador é um homem que sofreu um desvio. É claro que este desvio parece ser uma desqualificação zoológica, mas isso é a mera frescura do tom do texto. O que está em causa é a ideia de que a construção do mundo em palavra é sempre um processo trans-humano (ou seja, algo que transcende o estado presente da Humanidade). Infantil, o poeta regressa à imagem dos raios de sol, aqui ainda mais refinados em fios, testemunhos que as partículas "que" ajudam a passar numa criatividade de estafetas.

Ao mesmo tempo, a manhã (o amanhã que canta, formulação grave e irónica do conceito de utopia) é descrita como uma realidade que não precisa de armação porque, à semelhança do balão (de novo, o tom pueril), é tão aérea que se eleva por si mesma. João Cabral parece querer afirmar que a única verdadeira utopia seria aquela cuja possibilidade de concretização estivesse fatalmente contida no seu próprio ser (o jogo de sonoridades da segunda parte do texto cria a ilusão fonética de algo que a partir de si mesmo se metamorfoseia). Ou seja, uma utopia que, independentemente de maiores ou menores mediocridades humanas, não poderia deixar de se realizar.

O escritor consegue então atingir, através do uso não-retórico da metáfora, uma ambiguidade genial. Pois se o poeta é uma espécie de galo cantor, a verdade é que ele não é, de facto, um galo. E por isso, a utopia de invenção humana (sempre presa à dimensão material, à armação) nunca será perfeita como uma manhã. Não será, portanto, utopia.

E no entanto, o texto é absolutamente exaltante. Depois de o lermos, somos incapazes de não sonhar com um mundo renascido por força da generosidade da palavra. Pois todos nós, poetas, burgueses, homens de fé, políticos, suicidas, vivemos para a MANHÃ. É a nossa condição.

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