domingo, março 02, 2008

Cadernos Fellinianos 5

"O facto é que a música torna-me melancólico, carrega-me de remorsos, é como que uma voz de admoestação que nos consome porque nos recorda uma dimensão de harmonia, de paz, de gentileza de que fomos excluídos, exilados. A música é cruel. Enche-nos de tristeza de saudades e quando acaba não se sabe para onde vai. Sabe-se apenas que é inatingível e isto entristece-nos."

Federico Fellini (tradução de Helder Pereira Rogrigues)


Marc-Antoine Charpentier compôs uma versão operática do mito de Orfeu (de parte desse mito, aliás). A obra tem dois actos: o primeiro descreve a felicidade amorosa do poeta com Eurídice até esta ser mordida por uma serpente, o acto final encena a descida de Orfeu aos Infernos e termina com o início do caminho que o par tem de fazer para que Eurídice possa retornar à vida. O final em suspenso (anterior à derrota que Orfeu sofreu por ter desafiado a condição de Plutão) leva os especialistas a supor que talvez haja um terceiro acto perdido algures na História da Música, ou que pelo menos Charpentier tivesse em mente a sua posterior composição.

Da minha audição da ópera, concluo que o autor nem foi muito hábil a transmitir-nos a alegria do jovem casal (como compará-lo com Lully ou Mozart?), nem a contagiar-nos com a dor da tragédia. Mas, de repente, o segundo acto surge verdadeiramente encantatório. Não tanto por causa da mestria lírica da personagem Orfeu (como representar a poesia capaz de vencer a morte?), mas devido à música entregue aos seres do Inferno.

Quando as personagens do submundo sabem que o poeta os vai abandonar (já obteve o que queria do Além), pressentem que a crueza das suas penas irá regressar com força redobrada. A lira havia-os consolado, havia tornado o inferno suportável, o regresso da dor será então bem mais violento.

A música que dá conta desta nostalgia é lindíssima. E nós ficamos não só com a sensação de ter conhecido o Inferno tão bem como na "Divina Comédia" (conhecer é acima de tudo conhecer as perdas), mas também compreendemos as palavras de Fellini acima transcritas.

Ainda bem que não se encontrou o terceiro acto.

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