sexta-feira, março 21, 2008

As lições de música

1. Durante uma aula de viola d'arco, o professor alertava a aluna para o facto de, na execução de uma obra de Bach, ela já estar a interpretar a sua voz (aparentemente) única como se extraísse harmonia de cada nota tocada. Como só conheci instrumentos polifónicos, nunca me tinha apercebido deste facto (a persistência de harmonia latente numa melodia não acompanhada).

E assim a escrita se torna mais clara: o poema pode ser precisamente definido como a execução da palavra de modo a que esta faça o leitor pressentir os continentes de sentido com que ela se pode harmonizar. Então, não é possível ler o poema rejeitando o trabalho de interpretação (sob pena da vida não encontrar eco no texto), mas também não se pode concretizar essa interpretação (tornando o texto tão ensimesmado que ele prescinda da vida). A leitura aproxima-se da escuta musical, no sentido em que é também uma auscultação da liberdade.


2. Nas aulas de canto, quando os alunos têm de atingir uma nota demasiado aguda, o professor ensina que o movimento corporal associado a esse esforço deve seguir o caminho inverso: o cantor deve pensar (tecnicamente) para baixo quando vai cantar para cima.

O que redime a poesia é precisamente isso: mesmo João da Cruz falando de Deus ou Rilke evocando o Anjo e o Aberto, eles continuam presos à impossibilidade de abstracção radical. A palavra assim o exige. E quando Rilke fala de violino, não se livra do elitismo financeiro que condiciona a aquisição de um Stradivarius; assim como quando fala de maçã, não se livra do duríssimo trabalho rural que está por trás da democratização desse fruto. A crítica deve encontrar o ponto de lucidez que equilibra tudo isto.

A música é uma tentativa de off-shore existencial (enfim, a voz ou a madeira do violoncelo nunca permitiriam esse sucesso). A poesia tem pés de barro (e cada autor tem um limite inferior e um limite superior na tessitura do seu universo conceptual).

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