sábado, março 29, 2008

"Le voyage du ballon rouge" - imagem

O ACTUAL 17

"Le voyage du ballon rouge" - Hou Hsiao Hsien

Não sei qual a razão que levou o tradutor do título deste filme a promover a viagem, do original francês, a um voo luso. Pois o que está aqui em causa não é uma qualquer superação lírica, mas apenas a noção de errância.

Hsiao Hisen parece ter querido fornecer-nos uma hipótese de explicação (o filme é bastante "pedagógico") para a evolução do movimento de câmara no cinema após o período clássico (fora do âmbito, portanto, do travelling e da panorâmica). Não é por acaso que vemos algumas personagens agitarem uma câmara de vídeo digital com aquele aparente descuido que sempre associamos a este aparelho.

Mas não se trata de um descuido. É uma alegoria. Pois assim como a câmara segue a errância imprevisível do balão vermelho pelos céus e ruas de Paris, de igual modo tenta seguir a errância imprevisível das emoções das personagens e das suas pequenas narrativas. E mais do que um mero método de filmagem (basta lembrar a magnífica cena da discussão de Binoche com o seu locatário, enquanto o piano está a ser afinado, notável pela sua real eficácia - emotiva, rítmica, etc.), tudo isto faz parte de uma opção compositiva baseada na pulverização. Seja ao nível da encenação (a imagem nunca nos mostra o espectáculo de marionetas de forma cabal, mas divaga pelos seus elementos componentes), seja ao nível da montagem (a arte de tocar um instrumento é fendida em três momentos: a aprendizagem do miúdo, a afinação pelo cego, a banda sonora baseada precisamente num piano profissional).

Ou seja, não é só a câmara que segue o balão vermelho, mas também a encenação e a montagem. E o balão vermelho é, sem grandes simbolismos, aquilo que MOVE a criança (o seu hesitante horizonte de crescimento). Criança que cresce no vaivém entre perdas afectivas (as várias que a mãe sofre), jogos de flipper, desejos caprichosos, problemas quotidianos intensificados até ao absurdo, obras de arte, as ruas da cidade (tudo sem aquela espessura de argumento com que se ganham os favores da crítica...).

Forma e conteúdo seguem a viagem do balão vermelho (por isso, e ao contrário da maior parte do cinema contemporâneo que assume uma postura modernaça, não há nada de gratuito neste filme).

Escolhendo para si o modesto alter-ego de um estudante (a personagem oriental), Hsiao Hsien invade o filme com mecanismos pueris de distanciação (o miúdo diz que não há nada para filmar naquele momento, e então surge um corte na montagem), tiradas didácticas (a discussão sobre o quadro do Louvre, as informações sobre tecnologia digital), e sublinhados com o traço grosso de uma criança (a ponte real que surge quando se passa do discurso do miúdo sobre a irmã para uma cena em que ele está em convívio com esta).

Não quer isto dizer que este seja um filme encantado. Pois se a jovem aprendiz de cinema diz que é possível apagar da imagem digital o homenzinho verde (o marciano) que controla o balão, ficamos assim a saber que, na vida, nem tudo aquilo que nos manipula é visível. E assim a obra se abre à sua dimensão de ironia política (à sua impossibilidade de equilíbrio clássico), que podemos simplificar na seguinte pergunta: o balão vermelho é tão livre quanto parece?

Lógicas que a lógica desconhece

Devo dizer que o caos não me interessa absolutamente nada.

(o não perceber tudo, o não saber bem o que se escreveu, etc.)


Aliás, se o caos o fosse realmente, nem sequer conseguiríamos dele ter noção suficiente para o podermos nomear.

Prefiro tomar a ciência como paradigma, e lembrar-me de como a lógica clássica com que o mundo foi entendido durante alguns séculos foi sendo substituída por outros modelos explicativos (a física quântica, a teoria das cordas), cada vez menos previsíveis, domesticáveis e até comprováveis. Não houve, contudo, uma cedência ao caos. Procurou-se, isso sim, outra maneira de organizar o discurso sobre o real.

Assim, parece-me que acontece o mesmo na arte. Quando uma obra desafia o modelo de clareza académica e universal que associamos a um certo classicismo, não quer dizer que devamos apreendê-la como o burro olha para o palácio. O que está em causa não é entender tudo (como quem decifra metáforas nos bancos da escola), mas conseguir articular uma hipótese de leitura onde as diversas partes que compõem a obra se possam articular num todo verosímil. Hipótese essa que pode compreender (como nos casos de Rimbaud, Paradjanov ou Max Ernst) o secreto, o não verbalizável, o absurdo, o irracional, o não partilhável, o subjectivo...

quinta-feira, março 27, 2008

Partilha 29

Continuo a minha investigação no âmbito do haiku:



alteração


demo
a soma
apenas a ponta
do icebergue da divisão


spam
a neve é agora extravio
só a chuva fala
p’ra nós


hífen ou travessão
faz a folha parte
da árvore
ou do outono?


x
sob vento rosado
a rosa já nem o enigma
sustém


sem efeito
é que no meu tempo
não havia flores
de estufa

Alvess



Há muito tempo que, no campo das artes plásticas, não sofria uma revelação tão violenta como a que me impôs a obra de Manuel Alvess.

Todos a Serralvess...

terça-feira, março 25, 2008

Reflexão paralímpica

Penso que ninguém discordará de que a urgência da intervenção humana deve sempre depender do tipo e do grau de gravidade do problema que essa intervenção pretende resolver, ou pelo menos mitigar. Viver em sociedade é equilibrar-se num jogo de compromissos, de escolhas. Se a dor de A é grande, mas a dor de B é insuportável, primeiro temos de resolver a dor de B, depois a dor de A.

Eu não sou rapaz para boicotar seja o que for. Mas espanta-me a argumentação que defende que os Jogos Olímpicos não devem ser impedidos para que os atletas possam dar livre curso à sua ambição. Estranho. Pois a dor do atleta é certamente grande (pode perder a medalha da sua vida, vê reduzido o seu prazer), mas a dor do tibetano talvez seja insuportável (dá mesmo direito à perda da vida).

Prefiro, portanto, que me digam que há demasiados interesses económicos em jogo (interesses de cotação mais olímpica que bovina), para que a integridade de um povo possa ser, urgente e cabalmente, assegurada. É uma questão de compromisso, de escolha.

De resto, sendo os atletas gente de paz, poderiam fazer exibições magníficas nas ruas de Lhasa.

A pálpebra

No intrincado processo que gere a observação humana do mundo, a poesia ocupa sempre a posição da pálpebra.

Não no sentido de escape ao conhecimento e à lucidez. Nem sequer é um repouso. A poesia é aquela cortina que, por brevíssimos instantes, se fecha, e assim nos permite engolir o real, deixando-nos aliviados para a mastigação visual que se segue. A poesia é o instante em que cada ser dá por si. Aliás, diz quem sabe que devemos desconfiar daqueles homens que não pestanejam.

A poesia é também o momento do sono, quando o mundo é cozinhado no wok onírico como uma hipótese de libertação. Diz quem sabe que não aguentaríamos a vigília se não tivéssemos os sonhos dormentes. Eu prefiro dizer que a poesia é a eternidade em que cada ser está em si.

E ainda há a morte, quando mãos queridas nos encerram dentro das pálpebras. Se na ciência a morte é assunto limitado, na poesia ela adquire a abundância da epopeia. Então, a poesia é o que fica do ser.

segunda-feira, março 24, 2008

Partilha 28

Excerto do conto infantil que escrevi hoje:


(...) Aliás, porque têm os humanos de aprender a contar depois do número dois?

Afinal, o par do leão é sempre a leoa, o par da cara é sempre a coroa e o próprio sol reparte a Terra a meias com a lua. Bem, o mundo está a mudar. Com as alterações do clima, a Natureza pode um dia deixar de ser monárquica, e como é na cabeça que tudo se resolve, se o leão perder a juba não há focinho que lhe valha a posição masculina.

Tomás pensou melhor: o sol e a lua maltratam-se em eclipses, as estrelas constelam-se em multidões, nunca ninguém viu uma abelha vestida de noiva e há aranhas que já nascem viúvas. Juntar uma pedra com quê, se o mundo é um puzzle de geologia? Os cães são sempre sete, andem atrás de osso ou de cadela (ainda não são os melhores amigos da mulher). E há países em que, no verão, o dia é sultão sempre presente e as noites nem espessura têm para se organizarem em harém. (...)

sexta-feira, março 21, 2008

O bailado do pensamento

Quando Stanislavski encenou "A gaivota" de Tchékhov, uma das suas mais famosas opções estéticas foi a colocação dos actores de costas para o público, durante a representação da peça escrita pelo personagem Treplev, no Acto I.

Essa quase-revolução (digo quase porque apenas descobrimos o que já foi esquecido) foi feita em nome de um realismo que se queria tão exterior quanto íntimo. No entanto, talvez sem que Stanislavski tivesse noção disso, o facto é que essa disposição dos actores acabou por funcionar igualmente como artifício teatral: estava recriada a ilusão da quarta parede.

O que Stanislavski redescobriu foi uma nova posição para o Homem em palco. Isso aumentou as possibilidades estritamente expressivas das artes da performance, mas mais ainda multiplicou as direcções possíveis ao pensamento (por exemplo, o filme "Vivre sa vie" de Jean-Luc Godard é famoso pelos planos de costas de Anna Karina, contrários a todo o realismo formatado por Hollywood).

Cada indivíduo que contribui para o pensamento, fá-lo sempre à maneira de um coreógrafo. Descobre um novo passo, uma nova posição, uma nova geometria. E as razões que o levaram a essa nova postura, não são necessariamente aquelas que os seus futuros utilizadores vão evocar.

Como num bailado, a descoberta de que o sol, e não a Terra, era o centro do sistema solar começou por ter um sentido essencialmente religioso, mas logo isso acabou por ser decisivo na evolução de uma astronomia isenta de teologia. Na História do Pensamento, não trocamos só de lugar, mas acima de tudo de ponto de vista sobre o lugar.

As lições de música

1. Durante uma aula de viola d'arco, o professor alertava a aluna para o facto de, na execução de uma obra de Bach, ela já estar a interpretar a sua voz (aparentemente) única como se extraísse harmonia de cada nota tocada. Como só conheci instrumentos polifónicos, nunca me tinha apercebido deste facto (a persistência de harmonia latente numa melodia não acompanhada).

E assim a escrita se torna mais clara: o poema pode ser precisamente definido como a execução da palavra de modo a que esta faça o leitor pressentir os continentes de sentido com que ela se pode harmonizar. Então, não é possível ler o poema rejeitando o trabalho de interpretação (sob pena da vida não encontrar eco no texto), mas também não se pode concretizar essa interpretação (tornando o texto tão ensimesmado que ele prescinda da vida). A leitura aproxima-se da escuta musical, no sentido em que é também uma auscultação da liberdade.


2. Nas aulas de canto, quando os alunos têm de atingir uma nota demasiado aguda, o professor ensina que o movimento corporal associado a esse esforço deve seguir o caminho inverso: o cantor deve pensar (tecnicamente) para baixo quando vai cantar para cima.

O que redime a poesia é precisamente isso: mesmo João da Cruz falando de Deus ou Rilke evocando o Anjo e o Aberto, eles continuam presos à impossibilidade de abstracção radical. A palavra assim o exige. E quando Rilke fala de violino, não se livra do elitismo financeiro que condiciona a aquisição de um Stradivarius; assim como quando fala de maçã, não se livra do duríssimo trabalho rural que está por trás da democratização desse fruto. A crítica deve encontrar o ponto de lucidez que equilibra tudo isto.

A música é uma tentativa de off-shore existencial (enfim, a voz ou a madeira do violoncelo nunca permitiriam esse sucesso). A poesia tem pés de barro (e cada autor tem um limite inferior e um limite superior na tessitura do seu universo conceptual).

terça-feira, março 18, 2008

Partilha 27

Excerto de um conto infantil escrito recentemente:


"(...)

Passava uma nuvem e o pai perguntava a Tomás: o que vai ali a cruzar o céu? Tomás achava que a nuvem tinha aspecto de dióspiro. Estava frio. Dentro dos termómetros, os fios de líquido queriam regressar ao ovo de onde tinham nascido, mas Tomás não parava de crescer. Se bem que, para si mesmo, crescesse em números Fahrenheit e para os pais andasse mais modesto na escala de Celsius.

(...)"

quarta-feira, março 12, 2008

terça-feira, março 11, 2008

No escrínio 35

Poema "Tecendo a manhã", de João Cabral de Melo Neto:


Um galo sozinho não tece uma manhã:
ele precisará sempre de outros galos.

De um que apanhe esse grito que ele

e o lance a outro; de um outro galo

que apanhe o grito que um galo antes

e o lance a outro; e de outros galos

que com muitos outros galos se cruzem

os fios de sol de seus gritos de galo,

para que a manhã, desde uma teia ténue,

se vá tecendo, entre todos os galos.



2.

E se encorpando em tela, entre todos,

se erguendo tenda, onde entrem todos,

se entretendendo para todos, no toldo

(a manhã) que plana livre de armação.

A manhã, toldo de um tecido tão aéreo

que, tecido, se eleva por si: luz balão.






Nem sempre uma obra exaltante consegue perenizar o seu efeito de exaltação. O filme "O couraçado Potemkine" de Sergei Eisenstein permanece, é certo, uma obra-prima de força afectiva. Mas como podemos aceitá-lo sem um sentimento de amargor depois de tudo o que sabemos sobre a História do comunismo? Eu, pelo menos, não posso.

Neste pequeno poema, João Cabral de Melo Neto conseguiu evitar todo e qualquer risco de aparecimento de rugas, sem precisar de elixires de simbologia eterna nem de cirurgias interpretativas.

É claro que estes galos que, com a sua voz, vão tecendo os diversos fios que hão-de fazer a manhã, estão no texto a ocupar o lugar dos poetas. É curiosa esta escolha do galo para alter-ego, sintomática da sensibilidade cabralina (trata-se de um bicho bastante prosaico, sem voo, destinado à procriação ou à panela). Relevante será ainda a ideia de que um poeta único nunca seria capaz de fundar uma aurora: a comunidade encontra-se aqui defendida em todo o seu esplendor. No entanto, apesar de ser indiscutível, esta é uma interpretação demasiado pesada a que o poeta, por coquetterie, provavelmente resistiria (João Cabral, educado pela pedra, dizia-se insolúvel na água).

E a verdade é que estes galos são também os meros galos que, de facto, cantam durante o nascer do dia. O poema pode resumir-se a uma evocação lírica da manhã (como fez Rimbaud num dos textos das "Illuminations"). Aí se encontram várias ideias sedutoras: o artesanato do tempo (na verdade, ainda não o conseguimos industrializar, podemos apenas iludi-lo), o sol físico que nasce para todos, a alba como algo inevitável (ergue-se por si mesma).

Creio, porém, que o poema não precisa de ser insultado nem pelos columbófilos da simbologia nem pelas galinhas do literal. A relação de Melo Neto com a criação metafórica é demasiado profunda e rigorosa para poder ser diminuída.

Ao representar o poeta pelo galo, o autor afirma que o criador é um homem que sofreu um desvio. É claro que este desvio parece ser uma desqualificação zoológica, mas isso é a mera frescura do tom do texto. O que está em causa é a ideia de que a construção do mundo em palavra é sempre um processo trans-humano (ou seja, algo que transcende o estado presente da Humanidade). Infantil, o poeta regressa à imagem dos raios de sol, aqui ainda mais refinados em fios, testemunhos que as partículas "que" ajudam a passar numa criatividade de estafetas.

Ao mesmo tempo, a manhã (o amanhã que canta, formulação grave e irónica do conceito de utopia) é descrita como uma realidade que não precisa de armação porque, à semelhança do balão (de novo, o tom pueril), é tão aérea que se eleva por si mesma. João Cabral parece querer afirmar que a única verdadeira utopia seria aquela cuja possibilidade de concretização estivesse fatalmente contida no seu próprio ser (o jogo de sonoridades da segunda parte do texto cria a ilusão fonética de algo que a partir de si mesmo se metamorfoseia). Ou seja, uma utopia que, independentemente de maiores ou menores mediocridades humanas, não poderia deixar de se realizar.

O escritor consegue então atingir, através do uso não-retórico da metáfora, uma ambiguidade genial. Pois se o poeta é uma espécie de galo cantor, a verdade é que ele não é, de facto, um galo. E por isso, a utopia de invenção humana (sempre presa à dimensão material, à armação) nunca será perfeita como uma manhã. Não será, portanto, utopia.

E no entanto, o texto é absolutamente exaltante. Depois de o lermos, somos incapazes de não sonhar com um mundo renascido por força da generosidade da palavra. Pois todos nós, poetas, burgueses, homens de fé, políticos, suicidas, vivemos para a MANHÃ. É a nossa condição.

quinta-feira, março 06, 2008

Tradução 6

Poema "A pulga", de John Donne, traduzido por mim:


Repara é nesta pulga, e nisso vê
Quão pouco aquilo que me negas é;
Sugou-me a mim, e agora a ti te suga,
'Stão nossos sangues em união na pulga;
Sabes que isto não pode ser tomado
Como defloração, como pecado,
....Mas sem fazer a corte ela desfruta,
....Intumesce de um sangue com origem dupla,
....Ah, como isso é bem mais do que a nossa conduta.

Pára, três vidas numa pulga poupa,
Onde nós quase... não!, já sup'rámos a boda:
Esta pulga é tu e eu, e tal
É o nosso templo e o nosso leito nupcial;
Estamos, a despeito dos pais e de ti,
Reunidos neste vivo claustro de azeviche.
....Mesmo se com direito me podes matar,
....Não queiras, a esse tanto, o suicídio juntar,
....E o sacrilégio, e assim por três vezes pecar.

Já purpureaste, com crueldade brusca,
Em sangue de inocência a tua unha?
De que pod'ria a pulga ser culpada,
Senão daquela gota que em ti foi sugada?
Todavia tu triunfas, e garantes
Que nenhum de nós dois 'stá mais fraco do que antes:
....Certo; compreende então o absurdo dos receios;
....Não terá mais valor, quando a mim te renderes,
....A honra, que a vida que na pulga tu perdeste.


(O texto original pode ser lido no meu site do myspace)

segunda-feira, março 03, 2008

1931-2008



Desapareceu um dos raros autores que eu gostaria de ter conhecido.

A obra de Maria Gabriela Llansol erguer-se-á à maneira do falcão.

domingo, março 02, 2008

Cadernos Fellinianos 5

"O facto é que a música torna-me melancólico, carrega-me de remorsos, é como que uma voz de admoestação que nos consome porque nos recorda uma dimensão de harmonia, de paz, de gentileza de que fomos excluídos, exilados. A música é cruel. Enche-nos de tristeza de saudades e quando acaba não se sabe para onde vai. Sabe-se apenas que é inatingível e isto entristece-nos."

Federico Fellini (tradução de Helder Pereira Rogrigues)


Marc-Antoine Charpentier compôs uma versão operática do mito de Orfeu (de parte desse mito, aliás). A obra tem dois actos: o primeiro descreve a felicidade amorosa do poeta com Eurídice até esta ser mordida por uma serpente, o acto final encena a descida de Orfeu aos Infernos e termina com o início do caminho que o par tem de fazer para que Eurídice possa retornar à vida. O final em suspenso (anterior à derrota que Orfeu sofreu por ter desafiado a condição de Plutão) leva os especialistas a supor que talvez haja um terceiro acto perdido algures na História da Música, ou que pelo menos Charpentier tivesse em mente a sua posterior composição.

Da minha audição da ópera, concluo que o autor nem foi muito hábil a transmitir-nos a alegria do jovem casal (como compará-lo com Lully ou Mozart?), nem a contagiar-nos com a dor da tragédia. Mas, de repente, o segundo acto surge verdadeiramente encantatório. Não tanto por causa da mestria lírica da personagem Orfeu (como representar a poesia capaz de vencer a morte?), mas devido à música entregue aos seres do Inferno.

Quando as personagens do submundo sabem que o poeta os vai abandonar (já obteve o que queria do Além), pressentem que a crueza das suas penas irá regressar com força redobrada. A lira havia-os consolado, havia tornado o inferno suportável, o regresso da dor será então bem mais violento.

A música que dá conta desta nostalgia é lindíssima. E nós ficamos não só com a sensação de ter conhecido o Inferno tão bem como na "Divina Comédia" (conhecer é acima de tudo conhecer as perdas), mas também compreendemos as palavras de Fellini acima transcritas.

Ainda bem que não se encontrou o terceiro acto.

Velatura

Reconheço que não tenho muito sentido do timing, mas enfim, lá vai...


França: proibir o uso do véu às mulheres muçulmanas em determinados locais (laicidade oblige), ou permiti-lo em nome do relativismo cultural?

Eu diria que a lei deveria apenas proibir a obrigação. Ou seja, se é de livre vontade, se é por convicção, que uma mulher quer viver o seu quotidiano encoberta por um véu, o Direito não a deve violentar nas suas escolhas (o Estado deve saber reservar-se para assuntos mais graves). Mas se a mulher usa o véu porque é obrigada, por uma cultura, uma fé, um preconceito masculino, uma família, e não porque o pretenda sinceramente, então a ordem jurídica deve ter mecanismos preparados para defender a integridade da sua liberdade. Defendê-la inclusive das agressões físicas que pode sofrer.

É claro que é difícil definir aquilo que, no fundo, somos ou não obrigados a pensar e a fazer (a educação é já uma forma de formatação da criança). Mas esse é um problema da filosofia, talvez do Direito Natural. A lei deve ser mais concreta e concentrar-se nos casos em que a usurpação da liberdade é evidente e prática.

Parece-me a única atitude digna de um Ocidente que se crê civilizado.