segunda-feira, fevereiro 25, 2008

O INACTUAL 23

"Charulata" - Satyajit Ray (1964)


Bhupati, homem de posses que fundou um jornal de intervenção pública, pratica o seu civismo na mais profunda ignorância do que é a vida inter-pessoal. O que não só o mina na dimensão afectiva (perde o amor da mulher), como na própria militância política (nesse tipo de combate, a confiança ingénua em toda gente não é uma forma sedutora de candura mas uma incompetência perigosa).

Por seu lado, a sua mulher Charu, solitária e aborrecida, adopta o amor pela literatura como uma forma de demissão ociosa.

A traição que ambos vão sofrer, afigura-se essencial à sua maturação. Pois no final do filme, a sensação que fica é a de que talvez Bhupati se venha a tornar um grande político (conhece agora a natureza humana) e talvez Charu se venhar a tornar uma grande escritora (o sofrimento tê-la-á aberto ao mundo). E talvez se tornem também marido e mulher de verdade, já que agora conhecem as mediocridades de cada um e a mentira na qual assentava a sua anterior relação.

O facto de, nas cenas finais, aparecer um plano fixo do criado (até aí quase esquecido pela narrativa) é sintomático dessa possível evolução: Charu tratava-o como um escravo, mas Bhupati também permitia a sua existência submissa.

Pressente-se um grande romance (de Rabindranath Tagore) por trás do filme, defendendo o par como uma união de amor e trabalho, e a literatura como o casamento entre afectos e civismo.

Os actores são prodigiosamente dirigidos. Especialmente a intérprete que dá vida a Charu que, através de pequenas revelações no seu rosto, constrói um complexo retrato onde coexistem inteligência, fervor afectivo, capricho, crueldade e tédio.

Acima de tudo, as decisões de filmagem são prodigiosas. Ray não trabalha a partir de uma regra prévia (ou de um conceptualismo frio), antes encontra a forma precisa de filmar para cada momento da sua obra. Por exemplo, todo o início de "Charulata" (em que é mostrado o tédio da mulher) é encenado em ritmo lento (que depois será ligeiramente acelerado), com uma banda sonora constituída por ruídos ampliados (ruídos que a solidão intensifica), e servido por velozes movimentos de câmara contrastantes com as acções inconsequentes da personagem, mas que traduzem com precisão a sua urgência interior.

Vi esta obra-prima de Satyajit Ray na mesma semana em que assisti à projecção de "Persépolis" de Marjane Satrapi. Talvez nenhum tratado feminista consiga dignificar a mulher com a mesma força destes dois filmes.

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