sexta-feira, fevereiro 01, 2008

O coleccionador 12

"4 meses, 3 semanas e 2 dias", de Cristian Mungiu, deveria ser o paradigma de uma qualidade média exigível ao cinema.

É um filme com uma estética assumida e coerente, com uma abordagem equilibrada do tema que pretende expor (e que útil teria sido vê-lo durante o debate que, entre nós, precedeu o referendo sobre a interrupção voluntária da gravidez), com evidente capacidade para trabalhar um certo dramatismo pungente (e não uma mera convenção dramática), conseguindo mesmo superar tudo isto para, em surdina, fazer uma subtil evocação da realidade ditatorial que a Roménia sofreu antes do desabar dos comunismos do leste europeu.

Abre-se, inclusive, ao menos óbvio: faz a sua acção progredir até que o prazer seja temporariamente sentido como asco (a cena em que o empregado de restaurante traz um prato com várias iguarias previstas no menu de um casamento), e descreve os meandros da amizade muito para além dos dois dedos de cerveja e conversa da confortável vida nocturna do mundo perfeito.

Guardarei na memória aquele plano fixo em que o casal de jovem namorados, no centro da imagem, está rodeado por adultos exultando com a boa disposição de uma festa de aniversário. Estes acusam os jovens de serem mimados, irresponsáveis, mal educados, etc. No entanto, o sofrimento de que a rapariga está a padecer tem uma gravidade que talvez nunca tenha atingido nenhuma daquelas bocas cheias (de comida e palavras). A minha atenção começou a hesitar: deveria apontar o olhar para o centro do plano (solidário com o meu próprio historial de desconfortos) ou para as suas extremidades (enquanto sobrevivente superficial)? O cinema também existe para obrigar os adultos a vacilarem.

E no entanto, só o centro da imagem permitia o foco adequado à minha visão. O resto fazia-me descambar no estrabismo.

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