quinta-feira, fevereiro 14, 2008

Nota Tim Burton

Em artigo recente no Jornal PÚBLICO, Mário Vieira de Carvalho louvava a decisão que o presente executivo tomou de cindir o cinema português ao meio, entregando as gestões do trabalho de autor e do audiovisual com ambição comercial a duas instituições distintas. O título do artigo era: "Cinema: arte e indústria".

Pouco relevante para a definição da ontologia da sétima arte (mas de onde vem este pensamento preguiçoso que só sabe recorrer a dicotomias infantis?), o texto é acima de tudo útil para o entendimento do presente socialismo. Por um lado, a sedução pelo modelo capitalista (a arte é definida como também sendo uma mercadoria, afirmação que não se me afigura nada evidente: é só na conjuntura da presente sociedade que tal pressuposto toma a força de dogma; para quem concebe a criação como um catalisar de afectos, esse estado de coisas tem aliás um nome bem específico - e nada disto tem a ver com o direito do artista a ter tão boas condições de vida como outro cidadão qualquer); por outro lado, uma aristocracia ideológica (o snobismo) que não permite que aquela sedução seja levada até às últimas consequências (os socialistas reclamam a sua autoridade moral, social e cultural do passado mítico da esquerda). Enfim, deixemo-los continuar a financiar as coisas certas pelas razões erradas. O criador quase sempre sobrevive à custa de equívocos.

Eu diria antes que existe um cinema que tenta (cada vez mais desesperadamente?) facilitar a vida ao espectador, que se refugia nas convenções do género e que muitas vezes se revela essencial na agitação do imaginário de toda uma sociedade. Lembro-me do filme "Cat People" de Jacques Tourneur, e presumo que teve um papel perturbador na figuração da sexualidade feminina numa época em que o erotismo da mulher estava escondido atrás da burka do puritanismo. Ou então, num filme recente (que não aprecio), lembro-me do famoso descruzar de pernas de Sharon Stone, evidente vulcão de fantasias para quem venera o que por ali está crucificado. Essa função do cinema é essencial (com mais ou menos comércio), e constitui um dos elementos mais produtivos (e menos assumidos) da História do século XX.

Mas há ainda outro cinema, a meu ver mais apaixonado e apaixonante, em que se tenta levar as possibilidades desta arte até à sua máxima libertação, em que se assume o cinema com a mesma seriedade (não confundir com sisudez) com que os filósofos trabalham o pensamento e os cientistas desenvolvem a sua investigação. Que isso não interesse às massas, não é surpresa: as massas também não se interessam por Platão ou pelas leis da óptica. Não sei sequer se deveriam estar interessadas (essa discussão não cabe neste post).

De qualquer modo, não entendo isto como uma dicotomia. John Ford, fazedor de westerns e Alfred Hitchcock, expert de thrillers de suspense, foram dois dos maiores autores do cinema; Godard, Antonioni e Tarkovski exploraram, respectivamente, as possibilidades do filme de gangsters, do policial e da ficção científica. De resto, o cu da Bardot em "Le mépris" também há-de ter agitado bastantes almas. Se alguma dicotomia eu aceitaria na discussão do assunto, seria aquela que separa cínicos de apaixonados - mas essa é ainda uma outra História.

O musical "Sweeney Todd", que eu não conhecia, traz propostas interessantíssimas para a nossa fantasia. Presumo que a ambição dos seus autores fosse a de forçar cada indivíduo do sexo masculino a nunca mais recorrer a um barbeiro sem um pequeno calafrio de terror. Pois se o acto de escanhoar o rosto deriva do desejo que o macho tem de controlar a sua sensualidade, o facto é que o rosário de degolações que o musical apresenta faz cair as máscaras da sedução galante e define o jogo sexual como uma selvajaria tipo sete-cães-a-um-osso (Todd e o juíz são adversários por causa da beleza de uma mulher). Para além disso, as empadas feitas de carne humana não só nos tornam mais cientes do nosso papel de predadores alimentares, como definem as relações sociais como actos de antropofagia não declarada. Ou seja, a peça expõe aquilo que, no nosso quotidiano, está apenas latente. Talvez não fosse, por isso, necessário fazer a dramaturgia evoluir até à tragédia shakespeariana (já estava tudo bem explicado na comédia), até porque a volúpia amoral proposta pela primeira parte de narrativa acaba assim por descambar num desespero mais convencional.

Tim Burton tem o mérito da escolha acertada do material literário a ser usado como ponto de partida do seu filme (claramente, a peça teatral poderia ter sido escrita de propósito para ele), e nas intuições de casting - não só podemos adivinhar os seus caprichos sentimentais pela forma como encena Helena Bonham-Carter, sua mulher, como Johnny Depp continua a expandir a sua capacidade de fascinação (apesar de que, no estrito campo do musical, não se pode dizer que ele funcione com a mesma capacidade de epifania de Judy Garland ou Fred Astaire, definitivamente a Voz e a Dança).

No entanto, o tratamento cinematográfico da peça parece-me bastante académico. E afirmo-o porque, para dizer com franqueza, não houve uma única imagem que me tivesse surpreendido. Já sabia que ia ser tudo assim: aquela Londres dickensiana, aquele azul anémico, aqueles flash-backs desnecessários e desajeitados, aquele sangue mais virtual que ketchup, aquela luz de cinema de prestígio, aquela planificação sem rasgo, aqueles movimentos de câmara sem exaltação, aquela montagem limpinha. Nem uma imagem, repito. Continuo a preferir a cristalização perfeita da poética burtoniana que está plasmada em "Edward Scissorhands", o desconforto polémico de "Ed Wood" ou o delicioso "The corpse bride" (onde o autor teve a genial intuição de que o mundo dos desenhos animados deve mais à liberdade do além-morte do que às limitações físicas da vida).

Não, não fiquei com medo de ir ao barbeiro. Até porque faço a barba em casa e já só frequento cabeleireiros.

1 comentário:

Mariposa Roja disse...

Olá!

Também não gostei do filme, aliás passei uma parte de olhos fechados porque tanta garganta degolada explicitamente além de entediante é obsceno. Fica-se com a impressão que o Tim Burton é um voyeur de violência e quis convidar-nos a ser também.
Não era preciso tanto do mesmo, já tinhamos percebido a ideia.
O lado experimental dos filmes de TB desapareceu e a única figura absurda, e engraçada era o barbeiro pseudo-italiano, cujo penteado parece ter-se tornado moda em Hollywoood, veja-se o criminoso dos irmãos Cohen.
Um abraço lisboeta,