segunda-feira, fevereiro 11, 2008

No escrínio (número especial)

Comentário, para jovens estudantes de música, ao poema "O segundo gato" de Manuel António Pina:


Em cada gato há outro gato

um pouco menos exacto
e um pouco menos opaco.

Um gato incoincidente
com o gato, iridescente,
caminhando à sua frente

ou a seu lado,
espírito alado
do que é terrestre no gato.

É o segundo gato
que permanece acordado
com o gato afundado

em sono abstracto,
aos seus pés enrolado,
espécie de gato do gato.

Ou que, mais tardo,
deambula pela sala
enquanto o gato se lava,

às vezes assomando
nos olhos do gato
como um passado imóvel e

enclausurado.
O próprio gato
não sabe

que anda por ali
algo que não cabe

dentro nem fora de si.


Assim como o gato tem outro gato que lhe faz as vezes da alma, da palavra que o nomeia ou da recordação (cada um escolhe a sua leitura de estimação), também o texto poético tem em si um outro texto, que é um pouco menos exacto e um pouco menos opaco: o texto musical.

Comecemos pelo princípio. O poema é feito de versos curtos e rápidos, de rimas muito próximas umas das outras, mas nunca causa no leitor a sensação de um impulso ofegante (nem o gato o deixaria, ele que, apesar de felino, é um bicho preguiçoso e dado ao sono). O escritor talvez tivesse iniciado o seu texto com a indicação Allegro molto semplice. Mas não precisa de o fazer: a disposição gráfica dos versos funciona como o mais rigoroso dos metrónomos.

Claramente escrito em compasso ternário (um tempo para o poeta, os outros para cada um dos gatos), o poema não divulga, contudo, a sua tonalidade. A nós parece-nos texto de nenhuns bemóis (o menos é o bequadro que naturaliza o opaco, e o enclausurado é mero acidente de precaução) e de um único sustenido (o outro gato é meio-tom acima do gato primeiro). Trata-se, portanto, de um texto solar, onde o modo maior se acusa na palavra-mediante-a-qual-o-poema-se-tornou-possível (outro) e onde proliferam as palavras sensíveis que estão a um passo desse astro que tudo ilumina (iridescente, alado, passado).

O leitor deverá ser rigoroso na execução das pausas (por favor, deixe o bicho lavar-se) e deverá tratar com criatividade as suspensões propostas (afinal, quanto tempo dura um sono abstracto?). Não há ritmos difíceis porque o gato tem a vida facilitada pela sua condição doméstica, mas o verso vinte e um tem todo o aspecto de ser uma quiáltera.

O poema pode ser cantado e a sua orquestração é um manancial de possibilidades: os gatos adoram caminhar sobre os teclados dos pianos, toda a gente sabe que eles são exímios miolinistas, e que os seus bigodes funcionam como duplas palhetas.

Acima de tudo, o importante é acariciar. Acariciar o gato, o poema, o instrumento musical, para que cada um de nós se entenda com o outro dentro de si

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