sexta-feira, fevereiro 01, 2008

Cronologicamente

A obra de alguns poetas explicita-se em forma de emaranhado__ poemas que não acabam, que noutros recomeçam ou noutros se perdem, parcial ausência de fronteiras, o todo da escrita difícil de partir (é o caso de Walt Whitman ou Ruy Belo).

Outros entendem a coerência de outra maneira: a despeito do rigor global, cada poema é assumido como um projecto relativamente individualizado (e aqui já andamos por terras de Cesariny ou Luiza Neto Jorge).


Fernando Echevarría pertence ao primeiro grupo.

No seu impulso criador, praticamente todas as palavras escolhidas são "positivas"__ mesmo palavras como pranto, tristeza, ausência, medo, etc. Como se o que se pretende dizer fosse tão complicado que não há que perder tempo com a "antítese" (Echevarría procura um tempo totalmente perdido e, sem contradição, totalmente ganho), nem o autor se pode dar ao luxo de desperdiçar nenhum termo. Até percebermos esta forma de serenidade, a sua escrita apresenta-se algo hermética.

No entanto, enquanto avanço no ano-após-ano da sua obra inteira, dou-me conta do seguinte: quando o poeta decide regressar a uma palavra abandonada há já algum tempo, o seu uso serôdio redunda várias vezes em anti-clímax (como se o autor tivesse perdido a mão daquele conceito); em compensação, sempre que um novo verbo é acolhido no work in progress, provoca uma pequena e súbita iluminação que abre novos caminhos para o emaranhado poético se expandir.

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