segunda-feira, fevereiro 18, 2008

Crónica de Chidiya Tapu

A Índia não nos recebe com aquele meneio de cabeça que os seus habitantes usam para exprimir timidez, comoção, delicadeza, ingenuidade, resignação e espírito submisso (tudo o que há de bom e de mau em tão nobre povo).

Pelo contrário. O país expõe a sua miséria como se ela não fosse inefável, mostra-se pouco higiénico, propício a doenças, desordenado e perigosamente confiante nas virtudes das indústrias de tecnologia e informação. Em compensação, o sistema de castas permanece oculto perante o estrangeiro. Seria preciso recorrer a uma convivência quotidiana para captar toda a aberração dessa situação social.

O rapaz que nos conduzia pelas intrincadas estradas de Port Blair nunca fez o dito meneio de cabeça. Mas como todos os indianos, conduzia como um louco. Buzina omnipresente, ultrapassagens suicidas e homicidas, desprezo por qualquer código da estrada (será que existe um código naquelas paragens?). Para os cépticos da viagem, prometo que a Índia é um daqueles raros lugares onde ainda é possível fazer uma experiência de genuíno caos. A ordem da globalização ainda não chegou lá (também não vi nenhum McDonalds).

Ao fim de uma inverosímil meia hora de viagem, chegamos a Chidiya Tapu, um pequeno cabo da South Andaman Island onde os mafiosos do turismo gostam de levar os estrangeiros para ver o pôr-do-sol. No entanto, o nosso guia perguntou se não gostaríamos de ir primeiro até à praia ali vizinha. Desejosos de relaxamento marinho, aceitamos logo a proposta.

Mal chegamos ao local, soubemos que tinha sido uma das zonas costeiras afectadas pelo grande tsunami de Dezembro de 2004.

Atrás do pequeno areal, havia uma selva inexpugnável onde se adivinhavam animais indómitos e excêntricos. Pastando à beira-mar, via-se um conjunto de vacas que, pela excessiva magreza, não se deviam sentir sagradas. O mar era um lago calmo e cálido, um eco do crepúsculo decorrente. Ao longo de toda a praia, viam-se árvores feitas em pedaços, caídas ao chão, com as raízes agressivamente expostas, como se fossem feridas resistentes à cirurgia plástica da passagem do tempo. Era um lugar protegido, solitário, de uma tranquilidade infinita.

Tirei logo a t-shirt e lancei-me àquele oceano sem ondas e livre de toda a sensação de frio. Mergulhei, nadei, etc. Mas eis que reparo nos indianos que estavam presentes no local. Incapazes de turismo fútil, incapazes também de sofisticação, entravam na água vestidos. As mulheres envergavam os seus saris (a peça de roupa mais bela do mundo), os homens talvez tirassem apenas a camisa. E tratavam o elemento líquido com tal discrição, tal gentileza, tal espírito de adoração, que eu supus que aquele lugar manso mas cheio de cicatrizes de uma violência excessiva conseguía reunir em si todo o sofrimento de um país.

Depois disso, o pôr-do-sol pareceu-me redundante.

2 comentários:

Miguel Drummond de Castro disse...

De facto, visto ao vivo, aquele meneio de cabeça é desarmante.

As águas do mar também são bem diferentes, nada das ondas do Atlântico. O mar na ìndia recebe-nos, aqui pode-nos levar longe ou engolir.

Na Índia quando voltei do mar passava uma manada de búfalos diante de duas mulheres de sari.

pedroludgero disse...

Engraçadíssimo este seu novo avatar (ou lá como se chama a figurinha com que na net nos disfarçamos)__

abraço