segunda-feira, fevereiro 18, 2008

1959

É preciso passar por cima dos clichés do melodrama e da maneira como este era entendido pela indústria cinematográfica da época, passar por cima da falta de carisma de alguns intérpretes (insuportável Sandra Dee, John Gavin facilmente substituível por outro actor qualquer), passar também por cima da dimensão mais reaccionária do filme (a incapacidade de entender que se pode conjugar trabalho e família, a confusão entre generosidade e beata resignação, o preconceito puritano aposto a uma rapariga que dança em casas da noite), para se entrar no problema fulcral de "Imitation of life".

Confesso que não é a minha obra favorita de Douglas Sirk. Nela o melodrama está escancarado a traço francamente grosso, não há nenhuma sequência delirante como o início de "Written on the wind", e acima de tudo estamos bem longe do requinte tonal de "All that heaven allows".

Ainda assim, o filme tem a sua força. A personagem mais sábia da história (a criada negra bondosa) diz a uma dada altura que os dois momentos mais importantes da vida são o casamento e a morte. Dito de outro modo: tudo o resto é mera imitação da vida. E como a única postura possível em relação à morte é o seu desafio sob a forma de um passo suspenso de cegonha, a única coisa que pode fazer da vida uma jóia verídica é a prática do amor. Ora, é precisamente isso que todos os personagens de algum modo desprezam até que a mencionada criada (única excepção ao estado de apatia afectiva) falece. Aliás, a magnificência do funeral que esta premeditou ao longo da vida deve menos a uma qualquer solenidade mórbida do que à capacidade simbólica que a morte sempre tem sobre os ainda sobreviventes.

No entanto, Sirk não abandona o seu filme à fábula exclusivamente moral. Todo o discurso existencial está fundido com a observação das inevitabilidades sociais. Assim, a ambição da actriz não é só frieza afectiva mas também a luta por dar boas condições de vida à filha. Mesmo a revolta da jovem negra que, devido à alvura anormal da sua pigmentação, se faz passar por branca, é justificada pelos diversos racismos que a narrativa vai exibindo. No fundo, a sua pele é uma pele de imitação, e mais do que uma possibilidade de liberdade ela funciona como maldição.

Claro que podemos ser resistentes. Ou viver na imitação de Cristo. Mas seremos sempre acossados por esta imitação de sociedade.

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