quinta-feira, janeiro 24, 2008

Proximidades

Talvez um historiador ou analista com maior capacidade de distanciação entenda o presente com outro sentido de perspectiva.

Já que eu fico apenas com a sensação de que vivemos um momento em que os fenómenos de moda imperam acima de qualquer coerência. O que é positivo quando pensamos que a coerência é sempre castradora, mas revela-se inquietante quando as modas adquirem uma força censória inesperada.

Por exemplo, se as artes plásticas mergulharam numa espécie de futuro puro e duro, insuportável, onde a vanguarda se tornou dogma independente de qualquer sincera eficácia de comunicação (por muito bem que alguém pinte, será sempre um artista que ainda se dedica às técnicas tradicionais), o cinema parece ter desaguado no consenso da sua vocação industrial de entretenimento, longe de qualquer ambição criativa e inovadora que possa incomodar o espectador não exigente (o cinema de autor é desprezado por grande parte dos aspirantes à sétima arte).

Outro exemplo, se os direitos dos homossexuais começam, felizmente, a ser defendidos pelas legislações dos países mais desempoeirados (ou seja, uma vivência polémica do corpo passa a estar juridicamente protegida), parece evidente que as mentalidades políticas progridem em direcção a uma espécie de censura daqueles hábitos individuais que sejam polémicos ao nível da saúde e da higiene.

Como se a própria tolerância estivesse dependente da direcção em que o vento sopra.

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