quarta-feira, janeiro 30, 2008

Ópera séria

Já toda a gente conhece o conto: uma ópera de Emmanuel Nunes, uma produção muito dispendiosa, público a abandonar a sala de espectáculos a meio da récita, alguma polémica no mundo musical.

Como em todos os meios profissionais, é natural que entre os herdeiros das harmonias de Bach e Mozart também haja situações de inimizade - por vezes fenómenos de mera inveja, outras vezes efeitos de injustiças inquestionáveis. Não sei avaliar o caso presente. Convinha, contudo, não esquecermos que, apesar de haver quem sonhe (a preto e branco) que o grande artista é um santo de irreverência política enquanto o criador medíocre não passa de um lambe-botas protegido pelo status quo, não é assim que as coisas se passam na chamada vida real.

É claro que também é importante questionar as relações da ópera com o poder político. No entanto, não esqueçamos que actividades como o cinema, o teatro ou a ópera resultam sempre de processos de compromisso (é a economia, estúpido!). Se há gente como o Godard que, em pleno filme, faz pouco dos seus patrocinadores (incapazes de lhe resistir por causa do seu prestígio), não podemos ser mais marxistas do que o Marx e exigir o mesmo tipo de moralismo de todos os criadores. Iríamos ficar de mãos a abanar. Ou seja, é preciso alguma elasticidade para abordar a questão (não temendo, contudo, levantar a voz quando o mínimo de decência foi posto em causa). Mas não é sobre isto que eu pretendo falar.

Do alto da minha profunda ignorância sobre composição, posso apenas dizer que, na música, sou mais fiel ao meu ouvido do que à minha cabeça. É claro que o ouvido tem de ser treinado, que o gosto de um melómano pode evoluir, que a compreensão intelectual de uma obra pode ensinar a beleza ao ouvido. Se eu enuncio aquele meu frágil critério é apenas para explicitar o modo como entendo a relação música contemporânea/público: nem a música se deve prostituir com o intuito de agradar a gregos e a troianos, nem a validade de uma obra se mede (positivo-romanticamente ou negativo-comercialmente) pelo número de pessoas que abandonam uma sala de espectáculos (muitos momentos essenciais da nossa História foram grandes momentos de abandono; em muitos outros já foi o povo a força motriz que os tornou possíveis). Simplificando: a música inteligente foi feita para conquistar o ouvido do seu receptor (graçola: é Arthur Miller a cortejar Marylin Monroe). Nestes assuntos, não abdico da sensualidade. E é a partir desse equilíbrio instável tão difícil de conseguir (e tão dado a intermináveis discussões) que talvez se deva pensar o futuro da comunicação da música erudita. Por mim, confesso: sou seduzido por Scarlatti, Christian Bach, Haydn, César Franck, Prokofiev, Messiaen, John Cage, e etc. e etc.

Todo este post serve para eu lançar um protesto: no jornal que diariamente acompanho (o PÚBLICO), não li nenhuma CRÍTICA à composição propriamente dita. Não era preciso uma tese de doutoramento. Apenas um esclarecimento isento, claro e capaz de abarcar a complexidade do problema, que permitisse que nós, leigos, pudéssemos ter alguma noção da relevância MUSICAL de "Das Märchen".

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