terça-feira, janeiro 15, 2008

O INACTUAL 22

"Utamaro o meguro gonin no onna" - Kenji Mizoguchi (1946)

Neste filme que, em português, recebeu o título "Cinco mulheres em torno de Utamaro", o realizador japonês encenou o grande pintor do século XVIII como um alter-ego das suas preocupações intelectuais (nada sei sobre a vida de Mizoguchi que me permita também descortinar identidades biográficas).

O pintor foi um homem que rejeitou tradição, conveniência moral ou posição social, para se entregar à plenitude da vida. E, para si, a vida era acima de tudo a experiência da irracionalidade erótica (que pode levar à obsessão por um amor inconsútil ou mesmo ao crime passional). Há aqui, claramente, uma espécie de afronta a toda a cultura oriental, miticamente associada à sabedoria, à serenidade, ao triunfo sobre o desejo. Caro Mizoguchi, depois de tantas tretas políticas, religiosas e até filosóficas, eu sinto-me chez moi nesta apologia do criador como um devoto da sensualidade.

A ficção descamba, então, em duas parábolas. Por um lado, quando Utamaro é algemado por ordem judicial (e assim impedido de pintar), toda a vida dos que o rodeiam subitamente se acelera até à morte. Ou seja, o autor sugere que o artista, quando em estado de passividade, sofre uma espécie de caos do imaginário que só quando ele passa ao acto da criação adquire alguma, muito frágil, ordenação.

Mas o mesmo passo da narrativa indicia também que o artista, orgulhosamente inútil, é aquele que tem as mãos materialmente atadas pois a sua acção política recai sobre o universo mais amplo do espírito. Curiosamente, neste filme Mizoguchi parece ter-se contido ao nível formal (note-se a rara sobriedade do trabalho de câmara), como se se tivesse algemado a si mesmo para depositar toda a emoção fílmica no sofrimento e no prazer dos corpos dos actores.

Isso não impede que uma das personagens femininas a uma dada altura verbalize que se pretende pôr nas mãos do pintor. E realmente, o filme é acima de tudo um conjunto de gloriosos retratos femininos (desde a cortesã cruel que afinal está dependente do sonho de um amor perfeito, até à menina super-protegida que decide descer à violência da vida). E a partir dessa multiplicidade de pontos de vista, Mizoguchi consegue produzir o seu retrato compósito da Mulher enquanto abstracção (na sua ideia, o sexo feminino seria o responsável pela constância erótica, e daí o seu sofrimento e o fosso que o separaria da masculinidade).

Uma última chamada de atenção para a sequência em que Utamaro e os seus amigos espiam a colecção de beldades de um milionário excêntrico, e que só pelos rápidos travellings em frente das criaturas a despojarem-se do seu vestuário já poderia ser louvado como um dos momentos mais líricos da História do cinema.

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