quarta-feira, janeiro 30, 2008

O ACTUAL 16

"The Darjeeling Limited" - Wes Anderson


Esta interessante comédia de Anderson funciona em plena continuidade com a tradição hollywoodiana do género (Cukor, Hawks, etc.). Trata-se de filmar a transformação psicológica de um conjunto de personagens por via de peripécias que são ao mesmo tempo cómicas e paradigmáticas (mais do que simbólicas). Um exemplo recente igualmente interessante é "Catch me if you can" (de Spielberg).

A Índia pela qual os três irmãos viajam ao longo do filme é uma Índia feita de folclore, turismo, clichés, é um país de papelão. Anderson não aborda o lugar sob uma perspectiva documental (o realismo precisa sempre de um visto de permanência) nem tenta captar a atmosfera poética que dele emana (como fez Pedro Costa em "Casa de lava", a propósito de Cabo Verde).

Parece-me que esta escolha da Índia como plateau natural deriva (prosaicamente?) de uma espécie de equivalência de paleta colorida entre a estética do realizador e a paisagem humana e geográfica da pátria de Tagore. Ou seja, nas mãos de Anderson, o sítio real chamado Índia torna-se cenário emocional. Cenário que, apesar de não ser artificial, adquire todas as características do artifício.

A viagem ao país exótico serve ainda para confrontar as três personagens centrais com uma outra forma de abordar o ritual funerário (defendo que o encontro com a criatura marinha no final de "The life aquatic with Steve Zissou" também pode ser lido como uma contemplação da morte). Ou mais exactamente, a passagem do luto negro americano para a brancura das cerimónias indianas (de novo, uma questão cromática) encobre um confronto muito mais relevante: na sua terra natal, os três irmãos sofreram a perda de um pai, no país por onde viajam são testemunhas dum caso de perda de um filho.

Tudo no seu périplo é paródia (ah! todos esses valente que vão para o Oriente para se descobrirem, ah! as viagens feitas de espiritualidade...) menos isso. A posterior fuga da inacreditável personagem da mãe conclui a mutação na perfeição: os três irmãos dão-se ao luxo de perder a bagagem do pai, podendo finalmente cortar o cordão umbilical do passado para se assumirem como adultos (um deles está mesmo prestes a assumir uma paternidade).

Apesar de alguma imperícia na gestão do tom na sequência dramática (not his cup of tea), Anderson mostra que sabe que há coisas que não têm piada nenhuma (basta pensar isso, senhores - humoristas - ah!- intrépidos - mártires - da - liberdade - de - expressão). A mãe chega a repreender os filhos quando eles tentam rir de forma cínica.

O filme, povoado de belos travellings evocativos do movimento de um comboio, tem o seu momento alto na cena em que um conjunto de cenários (compartimentos de comboio, interiores de avião, quartos de dormir, etc.) desfilam perante a câmara como se um travelling mais profundo os tivesse transformado em carruagens de um mesmo movimento do pensamento. É o único momento religioso do filme.

Sem comentários: