quinta-feira, janeiro 24, 2008

Nota Oliveira
















O momento central de "Cristóvão Colombo - o enigma", o último filme de Manoel de Oliveira, parece ser a declamação partilhada pelos dois recém-casados, perante a imensidão do mar, da primeira estância de "Os Lusíadas". O épico a que o realizador se refere é aquele que um par tem de enfrentar para vencer a dimensão de tempo que o adn de uma relação estável sempre exige. A saudade mencionada é precisamente a vivência psicologicamente inquietante dessa duração que se vai tornando cada vez mais passado e menos futuro. Em Nova Iorque, o casal idoso só repara, aparentemente, num relevo escultórico que faz alusão a um acontecimento perdido no tempo. Toda a deriva dos personagens por locais inundados de História pretende apenas inscrevê-los na sua própria irremediável velhice, dar-lhes a ver a nobreza solitária que redime a ruína em que se transformaram (o realizador sempre recorreu à didáctica através da mais inesperada ironia).

A estranha polémica em torno da nacionalidade de Colombo quer meramente insinuar que, perante qualquer novo mundo, o velho mundo que deixámos continua a impor o seu sentido de identidade. O jovem Luciano, quando vê semáforos pela primeira vez na vida ao chegar à América, só se lembra de que eles têm a cor da bandeira portuguesa. Colombo é sempre da nacionalidade originária daquele que emigra. Assim, se na viagem pelo espaço, a saudade acaba por ser um elemento reaccionário (que Oliveira não despreza, note-se), a viagem do casal pelo tempo funda-se precisamente na sublimação que a ternura traz à saudade.

Claro que este filme não é "Non - ou a vã glória de mandar" (obra que, apesar de alguns problemas de produção, está investida de amplo poder emocional e de grande inventiva formal). Pelo contrário, a dimensão didáctica está um pouco pesada demais, debitada sem grande imaginação. Falta aqui a irreverência de muitos filmes de Oliveira.

Ainda por cima, não consigo deixar de pensar que, quando o decano dos realizadores protesta contra a falta de interesse político por casas-museus ou coisas quejandas, está a falar dos seus próprios problemas de reconhecimento institucional (o que é um pouco irritante). Enfim, Oliveira está a envelhecer - mas com noventa e nove anos de idade, já não era sem tempo!

Sem comentários: