quarta-feira, janeiro 09, 2008

No escrínio 34

Poema "Compêndio de antropologia", de Fernando Echevarría:



Na memória de Deus se continua
a centelha que fomos no repente.
A nossa sombra segue sendo sua
na suspensão de si que nos consente.

Que a memória de Deus não nos situa.
A nós se dá sem fim e sem repente,
extremamente luz para que nua
possamos vê-la sem a vestir de gente.

E dizemos que estamos na memória
de Deus, por ser mais clara via
que as de pintar estradas a uma história

que só é história por onde nos desvia.
Da memória de Deus diz-se memória
para dobrar o cabo à analogia.




Se o Homem é centelha e sombra (vida e morte, portanto), é natural que a figura de Deus sempre tenha surgido associada à possibilidade da humanidade atingir um sem repente e um sem fim (respectivamente).

Afinal, a essência da História é o constante desvio do indivíduo (curiosamente, estou neste momento a escrever um conjunto de poemas chamados croquis, que me parecem estranhamente relacionados com este assunto). E por isso os homens de fé desejam uma mais clara via.

Fernando Echevarría não põe a religião em causa (veja-se a elegância com que livra a moral sexual da Igreja de qualquer polémica, ao celebrar uma nudez despida de gente). Preocupa-o, isso sim, uma dúvida de outra ordem: a dificuldade que existe em dizer a fé. O seu problema é, pelo menos na aparência, essencialmente poético.

Na sua visão, a passagem da História para a memória de Deus (do ritmo da existência para a fermata da eternidade) corresponde ao triunfo mítico que permitiu que um Cabo chamado das Tormentas (isto hoje está muito cá de casa...) mudasse o nome para Cabo da Boa Esperança. A expressão dobrar o cabo à analogia tem, por isso, diversos sentidos.

Está nela contida a ideia de vergar (um dos significados do verbo em causa) alguma coisa que tem a característica da dureza e que, por virtude da polissemia, se confunde com a ideia de fim (o cabo). Vergar a morte, portanto.

Mas dobrar é também duplicar: é o sonho de que o fim do Homem não seja a unidade absoluta que nos é evidente, mas possa progredir numericamente. A morte pode ter, portanto, outro fim (ou deveríamos antes dizer: outra finalidade). Afinal, o homem é feito à imagem e semelhança de Deus. Tudo o que precisa é de descobrir a potência de si mesmo.

Ainda detecto uma espécie de gesto desesperado neste esforço do poeta: é preciso dobrar o cabo para podermos continuar a viver na boa esperança (para que o Além se mantenha uma possibilidade de Descobrimento).

No entanto, aquilo que de facto se dobra é o cabo da analogia. Pois a memória (o sem-tempo) de Deus é algo de completamente inconcebível. Se usamos a palavra memória é porque fazemos uma analogia entre esse conceito do nosso mundo e o mundo divino outro para o qual não temos palavras. Mas isto de metáforas não é coisa de ânimo leve (embelezamento ou vaidade). É uma verdadeira luta. A analogia tem de ser dobrada (sofrida, relevante, sine qua non) para a podermos verbalizar (ironicamente, a antropologia do texto defende que ser Homem é aprender a dizer Deus).

A pesquisa formal de Echevarría é constante (veja-se, neste poema, a aproximação do advérbio extremamente ao nome luz). Mas o que ele (sem querer?) fornece ao seu leitor é, acima de tudo, uma hesitação: talvez todo o discurso sobre o divino seja afinal uma alegoria mal urdida (mal vincada). Pois o que se pretende alegorizar pode ser definitivamente (e em sentido amplo) sem gente.

Pobres, fracas palavras__

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