terça-feira, janeiro 15, 2008

Criteriosamente

Duas confissões prévias: não vi o filme "Call Girl" de António-Pedro Vasconcelos e não li o primeiro artigo que Rui Moreira escreveu no PÚBLICO sobre cinema português, o qual, aparentemente, gerou alguma polémica.

Não vi o filme porque faço questão de não o ver. Depois de confrontado com o objecto "Jaime" (um dos três ou quatro piores pedaços de cinema que guardo na memória), decidi não mais seguir a obra do realizador. Não li o artigo porque a frase escolhida pelos editores para resumir o texto me soou a argumento decrépito, simplista e acima de tudo inútil. Tudo preconceitos meus, claro está - mas a vida também é assim.

No entanto, o colunista voltou à carga no jornal de ontem. Esforcei-me então por ler o seu pedaço de prosa.

Passando por cima da recente e tresloucada tendência que leva os opinion makers a distribuírem acusações de fascismo, estalinismo, dirigismo e etc. a tudo quanto se mexa na sociedade portuguesa, eu lançaria apenas duas modestas achegas para a conversa.

Em primeiro lugar, defendo que quem quer falar de cinema àqueles que por cinema se interessam (por definição, os cinéfilos), deve-o fazer a partir do amor pelo cinema. Talvez eu seja um mau leitor (de resto, todos os colunistas contrariados se queixam de ser mal lidos), mas parece-me que o incómodo manifestado por Rui Moreira se prende essencialmente com o suposto desprezo do cinema português pelo público (visivelmente, o senhor não tem noção de quais são as profundas ambições de um criador honesto). Pondo tudo em pratos um pouco mais asseados, o busílis da questão é afinal económico (em sentido lato): para o presidente da Associação Comercial do Porto, a relevância de um filme medir-se-ia pelo número de cabeças que picam o ponto na bilheteira do cinema e não pela influência que a matéria fílmica provoca na inteligência, na memória e na afectividade de cada espectador. O colunista pode ter as suas razões, mas eu já não me interesso pelo que tem a dizer. A minha ideologia é um avião que não precisa de virar nem à direita nem à esquerda.

Em segundo lugar, não aceito as suas acusações contra a suposta mediocridade dos críticos que defendem o cinema de autor português. Que por essas bandas haja snobismos insuportáveis, não duvido (o Paulo Branco, homem essencial na dignificação da sétima arte lusa, teve o desplante de uma vez dizer que um bom filme é aquele que faz um espectador dormir durante alguns minutos...). No entanto, quando se quer confrontar a idoneidade profissional de alguém, tem que se pegar nas mesmas armas com que o visado trabalha. Ou seja, senhor Rui Moreira, comece a fazer crítica de cinema (no sentido mais nobre do termo). Ponha na mesa os seus argumentos, convença-nos dos seus gostos e desgostos, explique-nos por A mais B o que está errado na recensão do senhor X ou no ensaio do senhor Y. E leia, por favor. Leia muito sobre o cinema, investigue: Bazin, Deleuze, Daney, ou outros, muitos outros, saiba em que terreno se está a mover e deixe-nos sem palavras perante a inteligência dos seus raciocínios sobre estética. Até lá, a sua conversa é puro pulidovalentismo.

Termino com uma citação que me é muito cara:


"O público é tão pouco respeitado que, quando se vê profundamente respeitado, sente-se perdido".

Roberto Rossellini

1 comentário:

Rui Moreira disse...

Mando-lhe o texto que não leu. Dou-lhe, assim, a oportunidade de falar de algo que sabe.

“Call Boys”

Já chegou às salas o novo filme de António-Pedro Vasconcelos que, desta vez, escreveu e realizou um “thriller” tarantinesco sobre a corrupção e os costumes. Além de contar com boas prestações de Nicolau Breyner, José Raposo e Joaquim de Almeida, a irrepreensível direcção de APV revela-nos também os dotes de Ivo Canelas e de Soraia Chaves. Conhecida pelo seu papel em “O Crime do Padre Amaro”, Soraia revela uma capacidade de interpretação que vai para além da sua fotogenia e dos seus atributos físicos, algo que parece escapar aos “media” que insistem em confundir esses seus predicados.

APV tem o raro mérito de produzir filmes de que o público gosta e que são sucessos de bilheteira. Paradoxalmente, paga caro essa virtude e é vítima de um sistema perverso de dirigismo, que teve início na primavera marcelista. Nessa altura, como o regime queria evitar a censura directa, escolhia quem podia filmar através do controle político dos subsídios, que eram atribuídos pelo Instituto Português do Cinema em função das conveniências e financiados através de uma percentagem das bilheteiras. Hoje, os subsídios gerados através de uma taxa sobre a publicidade nas televisões são administrados pelo Instituto do Cinema e do Audiovisual e, em vez de critérios políticos, o dirigismo exerce-se através de critérios pretensamente estéticos, fomentando o “cinema de autor” de que Oliveira é o paradigma, e impedindo a produção de cinema “main stream”. É por isso que APV só conseguiu, até hoje, produzir sete longas metragens e teve de adiar o seu “Call Girl” já que no ano passado o subsídio lhe foi negado a pretexto de, imagine-se, ter menos capacidade de comunicação com o público do que a “Belle Toujours” de Oliveira. Ora, Oliveira merece todo o apoio, mas não pode esgotar os subsídios nem se pode transformar no paradigma do cinema nacional.

O problema complica-se ainda porque, para além dos maus critérios, que nem sequer aquilatam os resultados financeiros e artísticos, há falta de transparência nas decisões dos júris. Apaparicados por alguns “especialistas” e compostos por críticos que desprezam tudo o que atrai público, por gente com ligações ao sector e pelos habituais nomeados políticos sem qualificações, são o cenário orwelliano de jogos de bastidores que decidem quem, quando e o que se pode filmar. É por isso que, apesar da atracção do cinema falado na nossa língua, a percentagem de bilheteira dos filmes nacionais é de meio por cento, ou seja cinquenta vezes menos que a média europeia. Tudo isto porque o cinema é uma arte popular e de entretenimento, em que por muito que a produção seja distorcida, controlada e dirigida, a distribuição e a procura seguem regras de mercado.

Sugiro ao leitor que dedique umas horas a ver “Call Girl”, um bom filme de entretenimento, na linha dos que APV sempre realizou. Recomendo-lhe que, se gosta de cinema português, ignore os críticos que invariavelmente desdenham os raros filmes que vale a pena ver e , já agora, que evite aqueles que recebem muitas estrelas da crítica: mais do que os espectadores que conseguem arrebanhar.