quarta-feira, janeiro 09, 2008

Como tornar a pele mais porosa?

Sempre que alguém aborda a questão da Ética, mostra que o seu entendimento dessa disciplina se confunde, precisamente, com a ideia de disciplina. Por outras palavras, o homem ético é sempre visto como aquele que coloca limitações (de inspiração intelectual) a si mesmo, de modo a permitir a vida em comunidade (é a famosa responsabilidade que deve regular o direito à liberdade).

Devo dizer que essa perspectiva não me convence. Continuo a não perceber por que razão me hei-de impor um sofrimento, por mais benéfico que ele possa ser (especialmente quando esse Bem me aparece abstracto, distante ou até discutível). De resto, sobre isso Nietzsche já falou o suficiente. E era necessário que falasse, para criticar séculos e séculos de filosofia em que se defendeu que um Homem equilibrado teria de ser forçosamente artificial (um Homem que, no fundo, só por via de uma mutilação de si mesmo poderia ser membro da Cidade).

A busca de novos/velhos sentidos éticos para uma Humanidade absolutamente tresloucada continua a ser essencial, mas talvez se deva afastar de toda essa tradição de contenção, sacrifício e santidade (até porque já conhecemos de cor a História da religião, do comunismo e de seus vários sucedâneos).

Por exemplo, seria interessante pensar toda uma brecha Ética a partir da noção de permeabilidade. Pois se um indivíduo for de facto permeável à alegria e ao sofrimento do outro (emocionalmente permeável, note-se), esse indivíduo só poderá tratar o outro de modo a minorar-lhe a dor e a possibilitar-lhe o caminho da satisfação. E todo esse comportamento não poderá constituir um sacrifício, mas trazer um real prazer a quem o pratica. Penso que é isto que faz falta na obra de Espinoza: a defesa de um conhecimento socrático do Bem transferido para uma dimensão plenamente afectiva.

Ou seja, parece-me que o grande problema político do presente (provavelmente de sempre, futuro incluído) é a indigência com que cada indivíduo vive a sua alteridade. Deverá a Ética continuar a ser uma disciplina?

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