quarta-feira, janeiro 30, 2008

"The Darjeeling Limited" - imagem

O ACTUAL 16

"The Darjeeling Limited" - Wes Anderson


Esta interessante comédia de Anderson funciona em plena continuidade com a tradição hollywoodiana do género (Cukor, Hawks, etc.). Trata-se de filmar a transformação psicológica de um conjunto de personagens por via de peripécias que são ao mesmo tempo cómicas e paradigmáticas (mais do que simbólicas). Um exemplo recente igualmente interessante é "Catch me if you can" (de Spielberg).

A Índia pela qual os três irmãos viajam ao longo do filme é uma Índia feita de folclore, turismo, clichés, é um país de papelão. Anderson não aborda o lugar sob uma perspectiva documental (o realismo precisa sempre de um visto de permanência) nem tenta captar a atmosfera poética que dele emana (como fez Pedro Costa em "Casa de lava", a propósito de Cabo Verde).

Parece-me que esta escolha da Índia como plateau natural deriva (prosaicamente?) de uma espécie de equivalência de paleta colorida entre a estética do realizador e a paisagem humana e geográfica da pátria de Tagore. Ou seja, nas mãos de Anderson, o sítio real chamado Índia torna-se cenário emocional. Cenário que, apesar de não ser artificial, adquire todas as características do artifício.

A viagem ao país exótico serve ainda para confrontar as três personagens centrais com uma outra forma de abordar o ritual funerário (defendo que o encontro com a criatura marinha no final de "The life aquatic with Steve Zissou" também pode ser lido como uma contemplação da morte). Ou mais exactamente, a passagem do luto negro americano para a brancura das cerimónias indianas (de novo, uma questão cromática) encobre um confronto muito mais relevante: na sua terra natal, os três irmãos sofreram a perda de um pai, no país por onde viajam são testemunhas dum caso de perda de um filho.

Tudo no seu périplo é paródia (ah! todos esses valente que vão para o Oriente para se descobrirem, ah! as viagens feitas de espiritualidade...) menos isso. A posterior fuga da inacreditável personagem da mãe conclui a mutação na perfeição: os três irmãos dão-se ao luxo de perder a bagagem do pai, podendo finalmente cortar o cordão umbilical do passado para se assumirem como adultos (um deles está mesmo prestes a assumir uma paternidade).

Apesar de alguma imperícia na gestão do tom na sequência dramática (not his cup of tea), Anderson mostra que sabe que há coisas que não têm piada nenhuma (basta pensar isso, senhores - humoristas - ah!- intrépidos - mártires - da - liberdade - de - expressão). A mãe chega a repreender os filhos quando eles tentam rir de forma cínica.

O filme, povoado de belos travellings evocativos do movimento de um comboio, tem o seu momento alto na cena em que um conjunto de cenários (compartimentos de comboio, interiores de avião, quartos de dormir, etc.) desfilam perante a câmara como se um travelling mais profundo os tivesse transformado em carruagens de um mesmo movimento do pensamento. É o único momento religioso do filme.

Ópera séria

Já toda a gente conhece o conto: uma ópera de Emmanuel Nunes, uma produção muito dispendiosa, público a abandonar a sala de espectáculos a meio da récita, alguma polémica no mundo musical.

Como em todos os meios profissionais, é natural que entre os herdeiros das harmonias de Bach e Mozart também haja situações de inimizade - por vezes fenómenos de mera inveja, outras vezes efeitos de injustiças inquestionáveis. Não sei avaliar o caso presente. Convinha, contudo, não esquecermos que, apesar de haver quem sonhe (a preto e branco) que o grande artista é um santo de irreverência política enquanto o criador medíocre não passa de um lambe-botas protegido pelo status quo, não é assim que as coisas se passam na chamada vida real.

É claro que também é importante questionar as relações da ópera com o poder político. No entanto, não esqueçamos que actividades como o cinema, o teatro ou a ópera resultam sempre de processos de compromisso (é a economia, estúpido!). Se há gente como o Godard que, em pleno filme, faz pouco dos seus patrocinadores (incapazes de lhe resistir por causa do seu prestígio), não podemos ser mais marxistas do que o Marx e exigir o mesmo tipo de moralismo de todos os criadores. Iríamos ficar de mãos a abanar. Ou seja, é preciso alguma elasticidade para abordar a questão (não temendo, contudo, levantar a voz quando o mínimo de decência foi posto em causa). Mas não é sobre isto que eu pretendo falar.

Do alto da minha profunda ignorância sobre composição, posso apenas dizer que, na música, sou mais fiel ao meu ouvido do que à minha cabeça. É claro que o ouvido tem de ser treinado, que o gosto de um melómano pode evoluir, que a compreensão intelectual de uma obra pode ensinar a beleza ao ouvido. Se eu enuncio aquele meu frágil critério é apenas para explicitar o modo como entendo a relação música contemporânea/público: nem a música se deve prostituir com o intuito de agradar a gregos e a troianos, nem a validade de uma obra se mede (positivo-romanticamente ou negativo-comercialmente) pelo número de pessoas que abandonam uma sala de espectáculos (muitos momentos essenciais da nossa História foram grandes momentos de abandono; em muitos outros já foi o povo a força motriz que os tornou possíveis). Simplificando: a música inteligente foi feita para conquistar o ouvido do seu receptor (graçola: é Arthur Miller a cortejar Marylin Monroe). Nestes assuntos, não abdico da sensualidade. E é a partir desse equilíbrio instável tão difícil de conseguir (e tão dado a intermináveis discussões) que talvez se deva pensar o futuro da comunicação da música erudita. Por mim, confesso: sou seduzido por Scarlatti, Christian Bach, Haydn, César Franck, Prokofiev, Messiaen, John Cage, e etc. e etc.

Todo este post serve para eu lançar um protesto: no jornal que diariamente acompanho (o PÚBLICO), não li nenhuma CRÍTICA à composição propriamente dita. Não era preciso uma tese de doutoramento. Apenas um esclarecimento isento, claro e capaz de abarcar a complexidade do problema, que permitisse que nós, leigos, pudéssemos ter alguma noção da relevância MUSICAL de "Das Märchen".

sábado, janeiro 26, 2008

Para os leitores da Llansol



(Prunus Triloba)

Partilha 26

(três pequenos poemas que nenhuma das minhas colectâneas quer acolher;___dispersos)



the reluctant debutante

ponham a virgem em banho-maria
lavem-na da frigidez
quando vem registada a sina
o anjo anuncia sempre uma segunda vez



X-A(c)TO

joana quando ardia era sozinha
p’ra si deus foi um frio Dom João
um rato despejando o caldeirão
em cima do fervor da carochinha



(sem título)

entre a fé e a política uma ardência
incesto de onde nasce um Desejado
torna-se ex-voto o voto não votado
assim mandam as normas da evidência

quinta-feira, janeiro 24, 2008

Blogue en abyme

Apercebo-me agora de que a escrita continuada de um blogue leva o seu autor à concretização de um diário mais compulsivo que compulsório.

Todos nós já quisemos escrever um diário (maldita adolescência). E todos já desistimos de o fazer ao fim de um dia de imparável expectativa e mais dois de penosa obrigação. O facto do blogue ter uma audiência imediata (o elemento publicação a ele associado) acaba por constituir um estímulo permanente para o blogger continuar a escrever.

Assim como é mais fácil ir ao café para encontrar um amigo do que para saborear uma bebida em solidão, a rede de comunicação faz com que a escrita se torne mais conversa do que disciplinado projecto.

Tudo muda: para pior, para melhor. A perda de relevo que a epistolografia sofreu a favor do uso do e-mail é uma mudança a lastimar (e eu que sempre adorei escrever cartas). No entanto, a alteração do suporte diarístico (e das suas condições de produção) poderá trazer uma inusitada riqueza documental e literária ao tempo presente. Veremos os diários aumentarem de número e inovação. Não se chamarão diários, nem cadernos, e serão coisa diversa do que já conhecemos. Mas trarão consigo uma distinta possibilidade de rasto.

Proximidades

Talvez um historiador ou analista com maior capacidade de distanciação entenda o presente com outro sentido de perspectiva.

Já que eu fico apenas com a sensação de que vivemos um momento em que os fenómenos de moda imperam acima de qualquer coerência. O que é positivo quando pensamos que a coerência é sempre castradora, mas revela-se inquietante quando as modas adquirem uma força censória inesperada.

Por exemplo, se as artes plásticas mergulharam numa espécie de futuro puro e duro, insuportável, onde a vanguarda se tornou dogma independente de qualquer sincera eficácia de comunicação (por muito bem que alguém pinte, será sempre um artista que ainda se dedica às técnicas tradicionais), o cinema parece ter desaguado no consenso da sua vocação industrial de entretenimento, longe de qualquer ambição criativa e inovadora que possa incomodar o espectador não exigente (o cinema de autor é desprezado por grande parte dos aspirantes à sétima arte).

Outro exemplo, se os direitos dos homossexuais começam, felizmente, a ser defendidos pelas legislações dos países mais desempoeirados (ou seja, uma vivência polémica do corpo passa a estar juridicamente protegida), parece evidente que as mentalidades políticas progridem em direcção a uma espécie de censura daqueles hábitos individuais que sejam polémicos ao nível da saúde e da higiene.

Como se a própria tolerância estivesse dependente da direcção em que o vento sopra.

Nota Oliveira
















O momento central de "Cristóvão Colombo - o enigma", o último filme de Manoel de Oliveira, parece ser a declamação partilhada pelos dois recém-casados, perante a imensidão do mar, da primeira estância de "Os Lusíadas". O épico a que o realizador se refere é aquele que um par tem de enfrentar para vencer a dimensão de tempo que o adn de uma relação estável sempre exige. A saudade mencionada é precisamente a vivência psicologicamente inquietante dessa duração que se vai tornando cada vez mais passado e menos futuro. Em Nova Iorque, o casal idoso só repara, aparentemente, num relevo escultórico que faz alusão a um acontecimento perdido no tempo. Toda a deriva dos personagens por locais inundados de História pretende apenas inscrevê-los na sua própria irremediável velhice, dar-lhes a ver a nobreza solitária que redime a ruína em que se transformaram (o realizador sempre recorreu à didáctica através da mais inesperada ironia).

A estranha polémica em torno da nacionalidade de Colombo quer meramente insinuar que, perante qualquer novo mundo, o velho mundo que deixámos continua a impor o seu sentido de identidade. O jovem Luciano, quando vê semáforos pela primeira vez na vida ao chegar à América, só se lembra de que eles têm a cor da bandeira portuguesa. Colombo é sempre da nacionalidade originária daquele que emigra. Assim, se na viagem pelo espaço, a saudade acaba por ser um elemento reaccionário (que Oliveira não despreza, note-se), a viagem do casal pelo tempo funda-se precisamente na sublimação que a ternura traz à saudade.

Claro que este filme não é "Non - ou a vã glória de mandar" (obra que, apesar de alguns problemas de produção, está investida de amplo poder emocional e de grande inventiva formal). Pelo contrário, a dimensão didáctica está um pouco pesada demais, debitada sem grande imaginação. Falta aqui a irreverência de muitos filmes de Oliveira.

Ainda por cima, não consigo deixar de pensar que, quando o decano dos realizadores protesta contra a falta de interesse político por casas-museus ou coisas quejandas, está a falar dos seus próprios problemas de reconhecimento institucional (o que é um pouco irritante). Enfim, Oliveira está a envelhecer - mas com noventa e nove anos de idade, já não era sem tempo!

Peregrinando

Quando tenho uma ideiazita, fico logo com o receio de me ter vindo uma iluminação tipo Luís Filipe Menezes. Por isso, normalmente prefiro manter-me calado.

No entanto, posso dizer que me passou pela cabeça a possibilidade do cinema português passar por um processo de conversão geral à tecnologia digital. Afinal, não há possibilidade de aqui existir uma indústria cinematográfica (como pode alguém sonhar com isso perante as incríveis fragilidades da nossa economia?). E de qualquer modo, no mundo, indústrias dessas contam-se pelos dedos de uma mão.

A tecnologia digital está agora a começar a sua História (tanto técnica como estética). O horizonte de possibilidades tem uma amplidão com que a película nem poderia sonhar. Alguns dos melhores filmes dos últimos anos foram feitos através desse processo. E a melhor notícia de todas é que o digital é pouco dispendioso (os custos com material e até com a equipa são muito, muito menores).

Num país onde não há dinheiro para filmar, talvez não fosse disparatado promover este novo modelo de produção (apostando em tecnologia de ponta, de grande qualidade). Mais gente filmaria, mais vezes toda essa gente filmaria, e até talvez se pudesse melhorar as condições de criação de cada projecto.

O que temos de salvar no cinema é o seu poder de comoção estética e intelectual.

sexta-feira, janeiro 18, 2008

Tradução 5

Poema "O sonho", de John Donne, traduzido por mim:



Querido amor, por nada menos do que tu
Teria interrompido este sonho ditoso;
.....O seu teor
Era forte demais para uma fantasia,
Por isso com razão me acordaste; e todavia
Mais do que interromper, tu continuaste o meu sonho,
Tu és tão realidade, que os teus meros pensamentos
Fazem, de devaneios, História e Verdade;
Deixa que eu te abrace: já que achaste mais certo
Que o sonho ficasse a meio, vivamos o seu resto.

Qual relâmpago, ou luz de círio,
O teu olhar, e não teu ruído, me acordou;
.....No entanto, à primeira vista,
Supus-te apenas Anjo (tu que amas a verdade),
Mas quando eu vi que conhecias
O meu imo, p'ra além do Anjo e sua arte,
Como sabias o que eu sonhava, e ainda quando
Me acordaria a euforia, e portanto vieste,
Confesso que seria uma evidente blasfémia
Supor-te um outro alguém que não tu mesma.

O teu vir e ficar mostrou que tu és tu,
Agora o levantar faz par'cer heresia
.....Essa tautologia.
O amor é fraco quando o medo é como ele forte;
E não é todo espírito valente e puro
Se tem mistura de honra, de medo ou vergonha.
Porventura como há quem a tempo e horas
Acenda e apague as tochas, assim comigo fazes,
Vieste p'ra inflamar, partiste p'ra voltar; então
P'ra não morrer, de novo sonharei essa esperança.



(O texto original pode ser consultado no meu outro site)

terça-feira, janeiro 15, 2008

Utamaro - a pintura e o filme





O INACTUAL 22

"Utamaro o meguro gonin no onna" - Kenji Mizoguchi (1946)

Neste filme que, em português, recebeu o título "Cinco mulheres em torno de Utamaro", o realizador japonês encenou o grande pintor do século XVIII como um alter-ego das suas preocupações intelectuais (nada sei sobre a vida de Mizoguchi que me permita também descortinar identidades biográficas).

O pintor foi um homem que rejeitou tradição, conveniência moral ou posição social, para se entregar à plenitude da vida. E, para si, a vida era acima de tudo a experiência da irracionalidade erótica (que pode levar à obsessão por um amor inconsútil ou mesmo ao crime passional). Há aqui, claramente, uma espécie de afronta a toda a cultura oriental, miticamente associada à sabedoria, à serenidade, ao triunfo sobre o desejo. Caro Mizoguchi, depois de tantas tretas políticas, religiosas e até filosóficas, eu sinto-me chez moi nesta apologia do criador como um devoto da sensualidade.

A ficção descamba, então, em duas parábolas. Por um lado, quando Utamaro é algemado por ordem judicial (e assim impedido de pintar), toda a vida dos que o rodeiam subitamente se acelera até à morte. Ou seja, o autor sugere que o artista, quando em estado de passividade, sofre uma espécie de caos do imaginário que só quando ele passa ao acto da criação adquire alguma, muito frágil, ordenação.

Mas o mesmo passo da narrativa indicia também que o artista, orgulhosamente inútil, é aquele que tem as mãos materialmente atadas pois a sua acção política recai sobre o universo mais amplo do espírito. Curiosamente, neste filme Mizoguchi parece ter-se contido ao nível formal (note-se a rara sobriedade do trabalho de câmara), como se se tivesse algemado a si mesmo para depositar toda a emoção fílmica no sofrimento e no prazer dos corpos dos actores.

Isso não impede que uma das personagens femininas a uma dada altura verbalize que se pretende pôr nas mãos do pintor. E realmente, o filme é acima de tudo um conjunto de gloriosos retratos femininos (desde a cortesã cruel que afinal está dependente do sonho de um amor perfeito, até à menina super-protegida que decide descer à violência da vida). E a partir dessa multiplicidade de pontos de vista, Mizoguchi consegue produzir o seu retrato compósito da Mulher enquanto abstracção (na sua ideia, o sexo feminino seria o responsável pela constância erótica, e daí o seu sofrimento e o fosso que o separaria da masculinidade).

Uma última chamada de atenção para a sequência em que Utamaro e os seus amigos espiam a colecção de beldades de um milionário excêntrico, e que só pelos rápidos travellings em frente das criaturas a despojarem-se do seu vestuário já poderia ser louvado como um dos momentos mais líricos da História do cinema.

Criteriosamente

Duas confissões prévias: não vi o filme "Call Girl" de António-Pedro Vasconcelos e não li o primeiro artigo que Rui Moreira escreveu no PÚBLICO sobre cinema português, o qual, aparentemente, gerou alguma polémica.

Não vi o filme porque faço questão de não o ver. Depois de confrontado com o objecto "Jaime" (um dos três ou quatro piores pedaços de cinema que guardo na memória), decidi não mais seguir a obra do realizador. Não li o artigo porque a frase escolhida pelos editores para resumir o texto me soou a argumento decrépito, simplista e acima de tudo inútil. Tudo preconceitos meus, claro está - mas a vida também é assim.

No entanto, o colunista voltou à carga no jornal de ontem. Esforcei-me então por ler o seu pedaço de prosa.

Passando por cima da recente e tresloucada tendência que leva os opinion makers a distribuírem acusações de fascismo, estalinismo, dirigismo e etc. a tudo quanto se mexa na sociedade portuguesa, eu lançaria apenas duas modestas achegas para a conversa.

Em primeiro lugar, defendo que quem quer falar de cinema àqueles que por cinema se interessam (por definição, os cinéfilos), deve-o fazer a partir do amor pelo cinema. Talvez eu seja um mau leitor (de resto, todos os colunistas contrariados se queixam de ser mal lidos), mas parece-me que o incómodo manifestado por Rui Moreira se prende essencialmente com o suposto desprezo do cinema português pelo público (visivelmente, o senhor não tem noção de quais são as profundas ambições de um criador honesto). Pondo tudo em pratos um pouco mais asseados, o busílis da questão é afinal económico (em sentido lato): para o presidente da Associação Comercial do Porto, a relevância de um filme medir-se-ia pelo número de cabeças que picam o ponto na bilheteira do cinema e não pela influência que a matéria fílmica provoca na inteligência, na memória e na afectividade de cada espectador. O colunista pode ter as suas razões, mas eu já não me interesso pelo que tem a dizer. A minha ideologia é um avião que não precisa de virar nem à direita nem à esquerda.

Em segundo lugar, não aceito as suas acusações contra a suposta mediocridade dos críticos que defendem o cinema de autor português. Que por essas bandas haja snobismos insuportáveis, não duvido (o Paulo Branco, homem essencial na dignificação da sétima arte lusa, teve o desplante de uma vez dizer que um bom filme é aquele que faz um espectador dormir durante alguns minutos...). No entanto, quando se quer confrontar a idoneidade profissional de alguém, tem que se pegar nas mesmas armas com que o visado trabalha. Ou seja, senhor Rui Moreira, comece a fazer crítica de cinema (no sentido mais nobre do termo). Ponha na mesa os seus argumentos, convença-nos dos seus gostos e desgostos, explique-nos por A mais B o que está errado na recensão do senhor X ou no ensaio do senhor Y. E leia, por favor. Leia muito sobre o cinema, investigue: Bazin, Deleuze, Daney, ou outros, muitos outros, saiba em que terreno se está a mover e deixe-nos sem palavras perante a inteligência dos seus raciocínios sobre estética. Até lá, a sua conversa é puro pulidovalentismo.

Termino com uma citação que me é muito cara:


"O público é tão pouco respeitado que, quando se vê profundamente respeitado, sente-se perdido".

Roberto Rossellini

Labore et constantia

Nos últimos anos, Portugal foi bafejado pelo aumento de cidadania que sempre resulta da edição (com base em traduções cuidadas) dos grandes clássicos da literatura mundial. Já cá canta o "Quixote" e o "Crime e Castigo", é preciso reler o Homero, espalhados pela casa andam o "Kalevala", as "Metamorfoses" ou o "Orlando Furioso" a pedirem que os folheiem. Fantástico.

Agora falta fazer um esforço semelhante em relação à actualidade da poesia, que (à excepção dos escritores-vedetas) nos chega a conta-gotas ou de modo marginal, mas que é essencial matéria para enriquecer escreventes e legentes no seu colóquio sem tempo e com tempo.

sábado, janeiro 12, 2008

Efeméride modesta

Este blogue foi gentilmente visitado 10000 vezes.

Agradece-se aos atormentados e aos esperançosos.

quarta-feira, janeiro 09, 2008

No escrínio 34

Poema "Compêndio de antropologia", de Fernando Echevarría:



Na memória de Deus se continua
a centelha que fomos no repente.
A nossa sombra segue sendo sua
na suspensão de si que nos consente.

Que a memória de Deus não nos situa.
A nós se dá sem fim e sem repente,
extremamente luz para que nua
possamos vê-la sem a vestir de gente.

E dizemos que estamos na memória
de Deus, por ser mais clara via
que as de pintar estradas a uma história

que só é história por onde nos desvia.
Da memória de Deus diz-se memória
para dobrar o cabo à analogia.




Se o Homem é centelha e sombra (vida e morte, portanto), é natural que a figura de Deus sempre tenha surgido associada à possibilidade da humanidade atingir um sem repente e um sem fim (respectivamente).

Afinal, a essência da História é o constante desvio do indivíduo (curiosamente, estou neste momento a escrever um conjunto de poemas chamados croquis, que me parecem estranhamente relacionados com este assunto). E por isso os homens de fé desejam uma mais clara via.

Fernando Echevarría não põe a religião em causa (veja-se a elegância com que livra a moral sexual da Igreja de qualquer polémica, ao celebrar uma nudez despida de gente). Preocupa-o, isso sim, uma dúvida de outra ordem: a dificuldade que existe em dizer a fé. O seu problema é, pelo menos na aparência, essencialmente poético.

Na sua visão, a passagem da História para a memória de Deus (do ritmo da existência para a fermata da eternidade) corresponde ao triunfo mítico que permitiu que um Cabo chamado das Tormentas (isto hoje está muito cá de casa...) mudasse o nome para Cabo da Boa Esperança. A expressão dobrar o cabo à analogia tem, por isso, diversos sentidos.

Está nela contida a ideia de vergar (um dos significados do verbo em causa) alguma coisa que tem a característica da dureza e que, por virtude da polissemia, se confunde com a ideia de fim (o cabo). Vergar a morte, portanto.

Mas dobrar é também duplicar: é o sonho de que o fim do Homem não seja a unidade absoluta que nos é evidente, mas possa progredir numericamente. A morte pode ter, portanto, outro fim (ou deveríamos antes dizer: outra finalidade). Afinal, o homem é feito à imagem e semelhança de Deus. Tudo o que precisa é de descobrir a potência de si mesmo.

Ainda detecto uma espécie de gesto desesperado neste esforço do poeta: é preciso dobrar o cabo para podermos continuar a viver na boa esperança (para que o Além se mantenha uma possibilidade de Descobrimento).

No entanto, aquilo que de facto se dobra é o cabo da analogia. Pois a memória (o sem-tempo) de Deus é algo de completamente inconcebível. Se usamos a palavra memória é porque fazemos uma analogia entre esse conceito do nosso mundo e o mundo divino outro para o qual não temos palavras. Mas isto de metáforas não é coisa de ânimo leve (embelezamento ou vaidade). É uma verdadeira luta. A analogia tem de ser dobrada (sofrida, relevante, sine qua non) para a podermos verbalizar (ironicamente, a antropologia do texto defende que ser Homem é aprender a dizer Deus).

A pesquisa formal de Echevarría é constante (veja-se, neste poema, a aproximação do advérbio extremamente ao nome luz). Mas o que ele (sem querer?) fornece ao seu leitor é, acima de tudo, uma hesitação: talvez todo o discurso sobre o divino seja afinal uma alegoria mal urdida (mal vincada). Pois o que se pretende alegorizar pode ser definitivamente (e em sentido amplo) sem gente.

Pobres, fracas palavras__

Como tornar a pele mais porosa?

Sempre que alguém aborda a questão da Ética, mostra que o seu entendimento dessa disciplina se confunde, precisamente, com a ideia de disciplina. Por outras palavras, o homem ético é sempre visto como aquele que coloca limitações (de inspiração intelectual) a si mesmo, de modo a permitir a vida em comunidade (é a famosa responsabilidade que deve regular o direito à liberdade).

Devo dizer que essa perspectiva não me convence. Continuo a não perceber por que razão me hei-de impor um sofrimento, por mais benéfico que ele possa ser (especialmente quando esse Bem me aparece abstracto, distante ou até discutível). De resto, sobre isso Nietzsche já falou o suficiente. E era necessário que falasse, para criticar séculos e séculos de filosofia em que se defendeu que um Homem equilibrado teria de ser forçosamente artificial (um Homem que, no fundo, só por via de uma mutilação de si mesmo poderia ser membro da Cidade).

A busca de novos/velhos sentidos éticos para uma Humanidade absolutamente tresloucada continua a ser essencial, mas talvez se deva afastar de toda essa tradição de contenção, sacrifício e santidade (até porque já conhecemos de cor a História da religião, do comunismo e de seus vários sucedâneos).

Por exemplo, seria interessante pensar toda uma brecha Ética a partir da noção de permeabilidade. Pois se um indivíduo for de facto permeável à alegria e ao sofrimento do outro (emocionalmente permeável, note-se), esse indivíduo só poderá tratar o outro de modo a minorar-lhe a dor e a possibilitar-lhe o caminho da satisfação. E todo esse comportamento não poderá constituir um sacrifício, mas trazer um real prazer a quem o pratica. Penso que é isto que faz falta na obra de Espinoza: a defesa de um conhecimento socrático do Bem transferido para uma dimensão plenamente afectiva.

Ou seja, parece-me que o grande problema político do presente (provavelmente de sempre, futuro incluído) é a indigência com que cada indivíduo vive a sua alteridade. Deverá a Ética continuar a ser uma disciplina?

segunda-feira, janeiro 07, 2008

O gosto da cicuta

Que tédio, alguém chamar-se Sócrates e nem ter a elegância de corromper a juventude.

quinta-feira, janeiro 03, 2008

Sombras dos antepassados esquecidos

Este filme de Sergei Paradjanov é uma espécie de "Romeu e Julieta" do frio leste.

No entanto, se em Shakespeare a morte dos amantes assume a forma de uma catarse desesperada, no filme de Paradjanov a dor parece subtilmente inserida num esquema de harmonia além-humana. Como se um par só se formasse verdadeiramente quando os corpos da paixão abandonam a vida, e nisso não houvesse tragédia, mas sim lucidez.

Toda a incrível sofisticação do realizador é usada para criar uma poética DE FACTO popular. Já não se ouvia uma "música" assim desde Mozart.

O clip mostra o início da obra (e inclui um dos movimentos de câmara mais exaltantes que conheço).

O DVD (da Midas) já está à venda...

Plano pessoal de leitura

Quando eu era miúdo, um dos meus sonhos mais estimulantes consistia no projecto de construção de uma casa pelas minhas próprias mãos, recorrendo às ajudas prestadas pela arquitectura das árvores.

Não me parece que houvesse aí nenhuma vontade de arquitectura (as minhas armas criativas são outras), mas o simples desejo que a criança tem de viver (a priori) uma vida adulta que ela própria possa conceber. Não tanto receber um automóvel a sério no dia do décimo oitavo aniversário, mas construí-lo peça a peça com legos. Não ter de saber como de facto se limpa o pó e faz o jantar, mas inventar tudo numa casinha de bonecas.

Com o crescimento, essa ambição de inventar a pólvora ou é esquecida ou se transforma no impulso de reinvenção (essa coisa de cidadania que é querer construir o lar que compreendemos em vez de habitar a casa que nos propõem).

Ao ler "O barão trepador" de Italo Calvino, a história desse miúdo teimoso que decidiu passar a viver nas árvores, mas que nesse mundo outro reconstruiu com mais equilíbrio o mundo nosso, sinto-me transportado para a dimensão política da minha infância. E se alguma nostalgia eu sinto, é a de não ter lido este livro nessa altura.