terça-feira, dezembro 04, 2007

Partilha 25

(Continua a publicação de alguns textos do meu projecto abortado "Cadernos de Xochimilco". O seguinte excerto é um apontamento de viagem.)


Não é um comboio, mas também tem um ecrã: é o autocarro que me transporta do centro do Porto para a minha casa adormecida num subúrbio gaiense.

Atravessamos a recém-nascida Ponte do Infante. Como estou acomodado nos assentos da metade direita do autocarro, a paisagem urbana e fluvial que me é projectada, é quebrada a meio pela presença da Ponte de D. Luís. De imediato, faço íntima a viagem pública: aquela ponte é o eco desta, D. Luís o eco do Infante.

Viciado em analogias (e a metáfora não pode ser substituída por nenhuma metadona), suponho que este é o modelo da construção de um poema. Há uma experiência vital que atravessamos (a ponte que nos suporta), e há uma coisa outra, distante, um eco, que é essa experiência vital tornada poema: é o território da imagem.

Até aqui, nada de entusiasmante: arrisco-me a chegar a casa abanando minhas mãos vazias. No entanto, tento atirar-me de cabeça para a profundidade da analogia: o que distingue a ponte onde estou da ponte que apenas avisto? Ambas têm uma arquitectura semelhante (as diferenças são variações causadas pela diferença de tempo). As pontes distinguem-se pelos seus meios de transporte. Uso a palavra transporte naquele sentido que (Deus nos livre…) o usavam os poetas antigos: o que distingue a experiência vital da experiência estética não é tanto a sua forma, mas os meios que cada uma utiliza para provocar o seu arrebatamento. O poeta é, de facto, um fingidor, enquanto o homem não passa de sentidor.

Que alguns tenham querido colocar os seus poemas no bas-fond de S. João (Breton, Péret), que outros, mais surreais ainda, se supuseram em plena Arrábida (Rimbaud, Rilke), que outros imaginem o rio como uma Via de Cintura Interna, em que o inconsciente se reencontra com o sublime (Char, Pessoa), nada disso altera a equação modelar, essencial, invariável.

E no entanto, que aconteceria ao meu pensamentozinho de trazer pela casa onde ainda não cheguei, se eu estivesse a passar numa ponte de Paris? Drogado por um Sena de pleno excesso, veria a minha experiência vital multiplicada em dezenas de ecos cada vez mais distantes, verdadeiro seixo pinchando ao longo da água lisa, série infinita de harmónicos onde a poesia seria amplificada a um tal ponto, que se tornaria, definitivamente, maior do que a vida.

Acabo esta viagem, então, com uma citação onde poderia facilmente habitar: “Un rayon blanc, tombant du haut du ciel, anéantit cette comédie.” (Rimbaud)

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