quinta-feira, dezembro 20, 2007

O ACTUAL 15

"Paranoid Park" - Gus van Sant


O último filme do oficioso realizador de Portland, U.S.A., abre com o longo plano de uma ponte atravessada por automóveis, cuja velocidade é exponencialmente intensificada pela própria aceleração da velocidade da imagem. Assim filmados, os veículos parecem de facto pequenos skates em trânsito frenético entre as duas margens da vida.

No entanto, van Sant não constrói pontes que expliquem a tragédia que resolveu encenar. Tudo aquilo que poderia ser usado como nexo de causalidade (a incapacidade educacional dos adultos, o desmembramento familiar, o eco da longínqua guerra no Iraque) é meramente apontado e condenado a manter-se ponta solta que não consegue explicar nenhuma biografia.

O único nexo que nos é dado é o gesto de Thanatos (pelo menos assim acontece desde "Gerry"). O que neste filme adquire uma evidente amplitude simbólica: o adolescente pretende fazer a passagem do seu movimento individual de liberdade (materializado na prática do skate) para o movimento da complexidade adulta (o comboio é um produto do maturidade humana), e é nessa tentativa de transição que a tragédia se dá. Para não ser apanhado no seu ilegal surf no comboio, o adolescente usa o seu skate como arma de agressão e provoca acidentalmente uma morte.

O registo do perigo que assombra a maturação da juventude contemporânea toma então, como ponto de partida, a estética juvenil (abuso de slow e fast motion, tangentes ao video clip, escassez de planos fixos, etc.). No entanto, van Sant adensa todo esse formalismo mtv ao denunciar o substrato trágico que lhe está latente. Através da narrativa, através da ironia (os video clips acompanham por vezes música erudita ou bandas sonoras de filmes), através do modo de filmar (quando capta as perícias dos skaters, a câmara move-se como se ela própria estivesse sobre um skate, mostrando-se incapaz de dar uma imagem plena do seu objecto, como conseguiria através de um travelling tradicional).

Se a narrativa-em-labirinto não parece tão justificada neste filme concreto (em "Elephant", não só a narrativa não nos levava a lugar nenhum, como a própria câmara percorria os corredores da escola como se estes formassem um labirinto), a visualidade do autor (e seu director de fotografia) está em plena forma. Basta mencionar o plano em que, quando o pai do protagonista está desfocado nos parece um burguês de classe média, mas quando de súbito a câmara o foca ele se revela uma espécie de proto-marginal infantilizado.

Enfim, a culpa continua a ser uma questão (questão paranóica, claro). No entanto, esta culpabilidade está mitigada pela ausência de dolo e por isso pode ser resolvida pela terapêutica da escrita. Não: isto não é o crime-e-castigo-em-skate. É o cinema americano a saber falar muito bem sobre a juventude.

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