quinta-feira, dezembro 20, 2007

No escrínio 33

Primeiro soneto do tríptico "Última lição de psicanálise", de Fernando Echevarría:



Que triste que era não ser triste nunca.
Andar à chuva como deve andar

quem por ela se molha e nela estuda,

pensando dela o que pensado está.


Ou passeando ao sol do mesmo modo.

Como se andar por ele andasse em si,

nem triste nem alegre, mas só como

ao sol a que anda e que se move ali.


Com, evidentemente, a consciência

de passar no relevo dessa imagem

como se passa pela indiferença


de se saber um ponto na paisagem.

E de saber que nunca houve tristeza,

nem ser triste foi triste, mas passagem.



A obra literária de Fernando Echevarría é inseparável do impulso metafísico que anima o seu autor. Conta-se que alguns livreiros, perante a aparente tecnicidade conceptual dos títulos de alguns dos seus livros de Poesia, os colocam por engano na estante da Filosofia.

Esta ambiguidade conforma a própria ironia da sua poética: os seus textos hesitam sempre entre a melancolia que resulta do pensamento e a euforia celebratória do acto de cantar. Ora, o presente soneto apresenta a Psicanálise como a ciência que desfaz a ilusão emotiva do estado de tristeza (e de alegria, claro), ao denunciar as motivações intelectuais (em sentido lato) que lhe estão na origem.

Mas se esta é a última lição de psicanálise, isso pode dever-se não à finalização normal de um qualquer curso académico, mas a um corte de relações com a disciplina. No primeiro verso, diz-se "Que triste que era não ser triste nunca". É certo que o vocábulo "era" pode estar a ser usado com aquela displicência com que todos nós corrompemos o correcto "seria", e neste caso, o poeta estará a levantar uma mera hipótese. Contudo, "era" pode ser de facto um pretérito imperfeito assumido, o que já parece sugerir um convívio com a psicanálise no passado que, entretanto, se diluiu.

Nada disto é certo. A despeito da incrível força das suas epifanias líricas, a poesia de Echevarrría é muito pouco evidente. Certo é que o "relevo" do décimo verso é um baixo-relevo (é passar pela indiferença), e que o "saber" do primeiro verso do último terceto é um saber pobre e tautológico. A psicanálise faz com que andemos à chuva pensando dela o que (já) pensado está (formulação obviamente derivada da expressão popular "chover no molhado").

Certo também é que uma das tristezas do poema faz a psicanálise da outra tristeza (como sempre acontece na homografia).Mas qual será mais (pro)funda e decisiva: a lucidez que desmitifica o conhecimento ou a emoção irracional que nos sugere que somos mais do que um ponto na paisagem? Ninguém pode entender o orignalíssimo discurso de Echevarría sobre o divino, sem passar previamente por este belo poema.

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