sábado, novembro 17, 2007

Vivre sa vie

Eis uma falsa questão: saber se um determinado produto do imaginário pode ou não provocar mudanças na realidade.

Fala-se sempre de Marylin Manson e dos adolescentes que provocam chacinas em escolas, dos carrascos nazis a ouvirem Mozart, da "Grândola Vila Morena", da profunda canalhice de um poeta católico como Claudel, e de muitos outros prós e contras. Aliás, os poetas hodiernos adoram minimizar a relevância da sua criatividade.

Eu diria antes que há pessoas para quem a vida e a arte são os dois atributos da mesma forma de ser. Não conseguem ir criando a sua vida sem irem vivendo a sua arte. E se a vida é questão de vida ou morte, a arte é questão de realização (em sentido lato) ou infelicidade. E nesses seres, só nesses, a arte muda a vida e a vida muda a arte (sem que isso se traduza em causas-e-efeitos puerilmente discerníveis). Ou seja, aquilo que eu espero da vida é também aquilo que eu espero da arte (apesar da diferença de ontologias). É uma maneira de estar, entre muitas outras.

E não tem nada a ver com elitismo. Pois se todos precisamos de vida como o senhor de La Palice, nem todos precisamos de arte (embora essa necessidade se possa transmitir e adquirir tardiamente). E por isso nunca entenderei a obsessão com o sucesso nas actividades criadoras: o imaginário, quando desvirtuado, só provoca escravatura.

2 comentários:

Mariposa Roja disse...

Sim, o principal para um artista é continuar a fazer-se através da sua arte. O comércio nada tem a ver com isto e muito menos o sucesso.

Terpsichore E. M. disse...

Caro Pedro

Bravíssimo!!!

E, para além do texto, ainda por cima o pequenos detalhe: finalmente alguém que se digna chamar de profundo canalha ao Claudel!!!

Fogo.

Sabe o que é que ouvi no outro dia? O príncipe eventual pretendente ao trono no Brasil, fazendo um discurso.... em que foi mencionar...Paul Claudel, coitado.

Belíssimo o seu texto. Muito obrigada.