terça-feira, novembro 27, 2007

Tudo menos o meio-termo

A metáfora apenas tem o rigor do olho nu, não está para além ou para aquém da pele como as humanidades ou as ciências. Por isso, podemos sempre escolher a metáfora mais conforme ao nosso impudor perante as coisas muitas do mundo.

Custa, de facto, acreditar que um ser não tenha sido criado. Nós que, demasiado humanos, criámos e criamos tantas coisas que depois sabemos não poderem chegar a ser a não ser mediante prévia autoria e que, de qualquer modo, vivemos na fé dos nexos de causalidade sem os quais o cosmos regride até à mitologia, nós não podemos conceber um ser sem criador. No entanto, essa incapacidade que nos leva, silogismo após silogismo, até à figureta de Deus, pode ser mero defeito da nossa estrutura, defeito esse de que nem animal nem planta nem marciano nem anjo parecem padecer.

Podemos, isso sim, fundar a nossa crença com base na metáfora mais cara à nossa privada seita verbal. Teremos de continuar a entender o Demiurgo como uma espécie de Super-Consciente com capacidade de tudo inventar a partir da sua lúcida vontade? Nós, que já passámos pelos surrealistas, pela criatividade dos loucos e pela imaginação das crianças, nós não poderemos partir do pressuposto de que o Criador era-é um absoluto Inconsciente? O Inconsciente do Universo.

Assim, o Inconsciente como a única dimensão da imanência que nos é por definição transcendente, e que explica a dinâmica de prazer e crueldade com que todo o cosmos funciona (e que o Homem-só-o-Homem fez descambar em caridade e violência, como tão bem notou Calvino no seu "O visconde cortado ao meio"). Uma Pura-e-Inesgotável-Imaginação que não previu nem o amor nem a guerra, indiferente às Igrejas que sempre a tentam ler segundo metáforas de retórico medíocre, vero Poeta da matemática.

Deus no qual não é preciso crer, mas apenas viver.

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