sábado, novembro 17, 2007

Tradutor: leal libertador

A tradução de um texto não deve ser um acto de virtuosismo, mas de sensualidade.

No momento presente, parece-me que não faz sentido que um tradutor se esmere a respeitar rigorosamente a métrica de um poema original na proposta de leitura que dele faz. A partir do momento em que o verso livre (em sentido lato) se tornou culturalmente mais relevante do que as antigas regras de versificação, já ninguém espera que um poema traduzido seja uma pirueta formal. Essa obsessão pode mesmo descambar num artificialismo obscuro que em nada faz justiça ao autor que se pretende comunicar.

No meu caso, essencialmente tento que o texto traduzido me dê tanto prazer a dizê-lo quanto o texto original me deu. Isto obriga-me a respeitar a cadência rítmica que o poeta me propôs, mas não a sua dieta rígida (por exemplo, na tradução de "O convite à viagem" intercalei sempre dois versos curtos com um ligeiramente mais longo, sem contudo me espartilhar na alternância entre redondilha menor e redondilha maior). Obriga-me essencialmente a fazer, de cada tradução, não um acto de historicismo mas sim a evidência da paixão que em primeiro lugar me moveu.

E para isso nem é preciso ser poeta: basta gostar honestamente de poesia.

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