segunda-feira, novembro 12, 2007

Partilha 24

(Continua a publicação de alguns textos do meu projecto abortado "Cadernos de Xochimilco". O seguinte excerto é um apontamento de viagem.)


Terceiro comboio: viagem entre o Cais do Sodré e a estação de Belém.

Sou presenteado com uma voz-off que é apenas íntima da distanciação. Da narrativa, fico a conhecer nada mais que a conjectura das fermatas, os momentos em que, para que se escancarem as portas da emoção, a pulsação do comboio irá abrandar até à imobilidade.

Mas não é este o assunto que aqui me prende. Antes da voz-off debitar o primeiro ensaio da sua futurologia cirúrgica, cardíaca, os viajantes são anestesiados por quatro notas musicais (três semicolcheias, talvez precedidas por uma pausa referente à mesma figura, e uma semínima conclusiva) tocadas num instrumento artificial e irritante. Reconheço os mesmos intervalos que introduzem (na mão esquerda) a quinta Sinfonia (para três vozes) composta por J. S. Bach para instrumento de tecla.

A partir daqui, poderia imaginar que a viagem de comboio passaria a corresponder a uma espécie de música tácita que todos os viajantes saberiam de cor na medida em que não passaria de um subtexto. Até poderia tentar adivinhar-lhe as vozes: o baixo assegurado pela continuidade do meio de transporte, suportando o jogo mais agudo entre o pensamento dos viajantes e a melodia transcendente da paisagem.

Mas ainda não é esta a minha paragem. Pois o que se me afigura encantador é o facto de, por um acaso feliz, a empresa transportadora ter complementado o seu discurso monótono com uma inesperada citação. Bach citado no início de uma viagem de comboio, não tanto epígrafe, mas verdadeiro mote de um diálogo que se estabelece ao longo das duas pautas dos carris.

Ora, isto abre todo um conjunto de hipóteses de erudição. Pois a gravata do senhor X pode conter uma cor que foi trabalhada até à exaustão por Matisse, uma senhora fala-barato pode sem querer improvisar meio verso escrito há muitos anos por Alexandre O’Neill, um par de namorados repete uma cena de uma comédia cinematográfica que nunca viu.

Sem disso ter consciência, o mundo acolhe em si pequenos fragmentos da vida intelectual. O mundo é erudito malgré lui, não consegue viver sem as citações que lhe dão sentido, beleza e história. E poderíamos alargar o âmbito desta vida cultural: pois a parangona de um jornal diário pode ter sido um achado verbal de um anonimíssimo senhor Y há muitos anos atrás, um sabor aperfeiçoado num restaurante pode uma vez ter sido encontrado por uma dona de casa distraída que se enganou nos ingredientes de uma receita, um poema medíocre de amor repete, linha por linha, outro poema medíocre de amor, escrito por outra pessoa num outro tempo segundo a mesma inspiração banal e adolescente.

Afinal, o que será o amor se não a citação reiterada até ao infinito de um erro de um qualquer par no princípio da história, a citação do génio do inconsciente, do acelerar do coração, da força da erecção?

Por que razão há quem se revolte contra o hábito da citação, quando nada há neste mundo que não seja a referência a uma outra coisa qualquer?

Encontrar algo que não seja citação será tão estranho quanto sair na estação de Belém, e ter nas mãos ouro, incenso ou mirra para presentear um infante que só vai fazer descobrimentos. E, hélas, a pólvora já foi descoberta há tanto tempo… Não se pode presentear sem igualmente passadar e futurar.

2 comentários:

AF disse...

belissima viajem.

pedroludgero disse...

Obrigado pelo comentário.